11 Novembro 2009

Mais um teste com Chuts, o porquinho

Teste do Gatim

10 Novembro 2009

Marcelo d'Salete, quadrinista

Os desenhos de Marcelo d'Salete já tinham chamado minha atenção quando eu os vi na revista Graffiti 76% Quadrinhos.

Há poucos dias, mais precisamente no dia seis deste mês, na HQMIX Livraria, em São Paulo, eu conheci o cara. Tive uma surpresa, rapidamente deletada, porque a princípio eu não associei o desenho, que eu julguei "europeu", com a figura do próprio Marcelo, um cara negro, simpático, discreto - aquela discrição que nada tem a ver com timidez, mas com auto-confiança - , que sorria educadamente mas tinha o olhar de um avaliador de arte profissional. Olhos que observam atenta e calmamente as coisas em redor. E deve ser isso mesmo porque o desenho do Marcelo é uma síntese, muito esquemática e muito artística do mundo ao redor - ou do mundo que ele resolveu retratar, não importa. O que importa é que essa síntese só é possível com um poder de observação muito apurado. Já vi isso em outros raros artistas - me ocorreu agora um Flavio Colin como exemplo.

Alguém sugeriu Muñoz, o desenhista argentino, como parâmetro da arte do Marcelo. É, tem a ver. Mas ele me lembra mais Jacques Loustal, o francês meio solitário da antiga Metal Hurlant. Elegância e solidão, duas coisas que exalam dos desenhos de ambos. Apesar da temática, que é a realidade urbana brasileira da grande maioria desfavorecida - e que muitas vezes resvala para a marginalidade crua e simples - , a arte de Marcelo não é marginal. Marcelo dispensa, com muita propriedade, o fascínio infantil pela escatologia, que é a tônica de centenas de publicações "marginais" que pululam por aí.

Nada de cu-caralho-buceta-maconha-merda-fuder-tripas-vômito, o foco obssessivo, hedonista e raso na genitália do mundo, ou o foco - meio nauseante - do ególatra no próprio umbigo sujo. Aqui o cordão umbilical já foi devidamente cortado há muito tempo, o bebê chorão não existe mais. Existe a maturidade de um mundo adulto, a visão adulta desse mundo - mais contundente que o berreiro infantilóide e generalizado porque impõe, pela força da arte refinada, uma reflexão, um espelho, uma indagação séria sobre o que estamos vivendo.

Continuo achando que a arte de Marcelo d'Salete é européia, mas na vertente do que a Europa tem de melhor: o refinamento de uma evolução artística que cobre já milhares de anos. É meio surpreendente encontrar isso por aqui.

Marcelo me presenteou com seu livro de histórias, NoiteLuz (Via Lettera, com prefácio de Bruno Azevêdo), devidamente autografado. Li e coloquei na estante, entre um Enki Bilal e um Hugo Pratt. O lugar de honra da minha estante porque fica na altura dos olhos, fácil de pegar para reler.

28 Outubro 2009

Rebatendo (só um pouco) Vargas Llosa

On line, na revista Piauí, um belo e longo texto de Vargas Llosa em defesa da literatura dá o que pensar. Mas pensar sobre literatura é uma faca de vários legumes. Milhares de escritores, mesmo os considerados grandes escritores, fazem da literatura uma atividade simplesmente sombria. Não tenho mais a convicção de que a literatura seja a luz no fim do túnel, o túnel escuro da estupidez humana (sic). Nem que espalhe sequer algumas lâmpadas, mesmo que sejam essas lampadinhas vagabundas de natal, piscando com seus 25 watts de euforia natalina pelas paredes desse mesmo túnel. Em suma, não acredito mais que a literatura ilumine os desprovidos de luz ou de lanternas.

Frente ao irrefutável argumento de Vargas Llosa de que a literatura promove, protege e dinamiza a linguagem humana posso contrapor, como um advogado do diabo, o fato de que a literatura também é a indústria metafísica da angústia. A maioria dos autores citados carinhosa e saudosamente por Llosa - grandes autores de quem, aparentemente, é preciso ter saudades - são exímios tecelões de uma rede de nós cegos, iguais entre si pela qualidade comum de provocar angústia.

Não sentir essa angústia e continuar pulando alegremente de um inferno pro outro é algo que me faz duvidar da capacidade cognitiva de qualquer leitor - o que, por si só, contradiz a tese de que o exercício da leitura amplia a percepção geral do homem. A noção do abismo deveria ser natural mas uma enorme parte da literatura fomenta o salto suicida, sem para quedas. Por outro lado, perceber a angústia e gostar dela a ponto de usá-la como travesseiro é um negócio bizarro demais, pra não dizer doentio.

"O diabo na rua (leia-se: no mundo), no meio do redimunho (leia-se: literatura)", está rindo discretamente.

22 Outubro 2009

Um poema (para um livro de poemas)

ternura

escrevi sobre uma ternura térrea,
a de Virgínia,
e sobre a ternura aérea de Helena
e a ternura aquática de Miriam,
que não mais comporta o peixe amante.

mas só da ternura ígnea de Tânia
posso, sim, averiguar em sonhos
o estrago na cidade incendiada.

esforço inútil,
tendo-se em conta esse motel calcinado
onde amei três vezes uma outra mulher
que não tinha nada
e nenhuma espécie de ternura

Velhas senhoras

Tempo de esquecer as velhas. Também já era tempo. Elas estão no mesmo lugar de sempre e acenam para mim com os braços magros. Alguns gordos.Essas velhas cairão no olvido, palavra irônica para quem não quer mais escutar seus sussurros. São as esperanças, as promessas, algumas amizades, muitas lembranças. É tempo de esquecer essas velhas senhoras tristes.

18 Setembro 2009

Algumas observações do observatório.


As gavetas com suas coisas interessantes. Mais uma pequena obra que não quer dizer nada e da qual eu nem me lembrava mais. Continuo sem lembrar. Claro, dei uma melhorada nas cores que estavam bem desbotadas.

29 Janeiro 2009

A Máquina Maligna contra o Marasmo

Desenhos antigos às vezes são engraçados. A gente perde contato com eles e, quando vê de novo, acha que eles são mesmo engraçados. Quando foram feitos, não deram a impressão de que eram engraçados, apesar da intenção ter sido essa, e foram relegados ao velho "ostracismo das gavetas".

A história em quadrinhos não foi feita, mas ficou esse desenho do cara nervosinho que tinha a M.M.M., a Máquina Maligna contra o Marasmo, que ele ganhou na sorte, num jogo de pôquer contra um psicanalista bêbado. E ele acionava a máquina contra qualquer dificuldade, desde dores de dente às dificuldades de entender a conversa chatinha das estudantes da PUC. Digitava um nome qualquer, tipo "Chitãozinho e Xororó" e ajustava a alavanca num dos 5 níveis básicos.

A máquina realmente não fazia nada demais, só emitia sons de coisas explodindo e gritos de dor. Era só para aliviar os estressados, mas o psicanalista que a inventou percebeu que os pacientes estavam ficando viciados nela.

22 Janeiro 2009

O ostracismo das gavetas (1)

Achei mais uma caderneta, mas não estava nas gavetas, estava no meio das roupas velhas no fundo da prateleira superior do armário. Eu costumo comprar essas cadernetas, caderninhos de papelaria de subúrbio, 70 centavos um, 1,65 reais o outro. Bloquinhos de papel vagabundo, de 12 x 6 cm, por aí.

Eu ando com esses troços, pretendo anotar telefones e recados, anoto, mas perco todos. Eu encho esses pequenos blocos de garranchos, desenhos e textos sem sentido. Escrevo à mão e, à medida em que vão ficando cheios, eu os troco por outros e, assim, tenho algumas dezenas de bloquinhos espalhados pelas gavetas. Às vezes acho algum do qual eu não me lembrava.

Não tenho I-Fode (é foda), notebuque ou coisa que o valha. Penso em comprar um, mas eles fazem tanta coisa que fico meio cansado em pensar nas possibilidades. Esses aparelhinhos são projetados para conexões, a palavra chave é conexão: com gentes, com seu e-mail, com telefones, com rss, feeds, com twiter, com o flickr - a aflição proveniente dessas práticas não me parece boa.

Quero a desconexão, cada vez mais, do mundo e da aflição tecnológica do mundo. Me equilibro parcamente no meu próprio ostracismo e meus velhos bloquinhos de anotações são o espelho dessa minha tendência de ostra fechada, ou fechando-se. E ainda, rebelde como o adolescente meio idiota que eu fui, com o fôdas ligado.

Mas achei esse bloquinho, do qual não me lembrava e, olhando suas páginas minúsculas, achei alguns textículos mirrados (assim mesmo, com "x"). De vez em quando vou postar um textículo desses (porque acho eles engraçados), inaugurando essa série que eu chamo, meio pomposamente, de "O ostracismo das gavetas". Quem sabe o título sirva para dar mais importância ao que era apenas para ser literatura de traças. Ié, ié, quem sabe.

Caderneta Apontamentos
Espiral 1/6
Contém: 40 folhas
Formato: 72 x 105 mm
pág.6:

Eu tinha quarenta e noves fora, anos sem pressa, quando o azul vitalício de um céu junino estabeleceu limites para meus peidos: ao norte, o mais nefasto; a leste o súbito peido das manhãs; a oeste o peido crepuscular, do silêncio sob as cobertas; ao sul o sulfuroso peido alucinado dos trovões.
Quando defini essas coisas, depois de uma noite inteira de troglodismos sem sentido - eu estava tentando quebrar, sem sucesso, a porta do cofre - já era de manhã e alguém, que não sei quem, ligou. Três tristes trins foram expelidos pelo aparelho, peidei em uníssono, no esforço para me levantar do chão, da ressaca, e atender. "Alô?", mas alguém, que não sei quem, desligou.