23 outubro 2011

Check this out, Lady Glassworth

  Well, I was driving around when the answer to the question came to me: Why can the common driver turn into an enraged beast when in traffic? Since at home he can hardly say no to his wife, who usually drives a car in a more civilized way, as shown by statistics, but who, in turn, is capable of terrorizing a simple breakfast, with an efficiency coming straight from the Devil’s kitchen.

  Meaning, considering the skill of imitating hellish beasts, the woman still beats men.
But this is another subject. The man, I'm talking about the common man, assuming it exists, is possessed by hellish beasts mainly in traffic, when he drives.

  Why would a peaceful citizen turn into an insane beast at the wheel of a shitty Corsa 1.0?

  The answer has to do with the atavistic memory, even if the guy is a crying emo, a certain Mr. right or an east coast burocrat.

  Imagine that, you’re in Europe, a thousand years ago, I guess, getting ready to play some popular sport of that time:
that thing called jousting, competition among gentlemen.

  You have a solid piece of wood, about 9 feet long.
At the tip, there’s a pointed piece of metal. The thing weighs quite a bit, so much that it comes with a leather shoulder belt, to aide you in maneuvering the spear.

  Maneuvering is a figure of speech.
You can, at the most, point the giant stick against your opponent. Right, you have an opponent with a stick just like yours who will come towards you mounted on a horse.

  You too have a horse, and you are hoisted and placed on top of it.
You need to be hoisted because you can’t mount it on your own, since you are wearing a steel armor that weighs 100 pounds or more. And the horse is a big one, thick shin; a necessarily huge horse, since it has to support your weight, the armor, the shield (you have a huge shield as well) and the weight of the equine armor itself.

  Very well, you are now mounted on the horse.
The saddle has a back, so you won't fall backwards. You need to be very well balanced on that thing, otherwise, if you lean too much towards either side, backwards or towards the front, you won’t be able to regain your original position.
Ok, they lead the horse, with you on top, and put you in a sort of corridor.
On the opposite end of the corridor there is a man wearing an armor, mounting another horse, who, like you, can hardly move.

  Then, someone gives a signal.
You hardly have time to lower the visor on your helmet. Of course, you are wearing a steel helmet and it has a visor, which you lower to protect your eyes. It could be a sort of grail, or two peeping holes on a metal piece. Meaning, you can’t really see much ahead of you. You aim your spear, basing your aim on the original position of your opponent and, meanwhile, the horse has fled along the corridor (this type of horse loves doing that), furiously running towards the other horse, which comes puffing in just about the same furious manner.

  The general idea of the thing is that you intend to unhorse, perforate, smash, brake in half your opponent, purely on impact.
Even though you know that he has the same expectation towards you.

  The both of you advance at about 25 miles per hour, each one, one against the other.
The impact will happen at about 50 miles per hour, for both. Maybe you will remember, at the final seconds before impact, that Lady Glassworth is watching, with those sweet eyes, and that you are carrying your scented handkerchief tied in a delicate bow on you right armored hand.

  You still have time to think, on a last concoction of adrenaline and testosterone that, if you dodge this one, you will have sex with a reluctant Lady Glassworth, whether she wants it or not.
And she’ll see, ah she will, what a real spear looks like.

  An experience like this, I must say, is burned on someone’s brain forever, if you survive.
You may die and, no doubt, you will die someday, but the genes will find a way of passing this experience on to your male offspring. Yours and Lady Glassworth’s. And it will be passed on one generation to the next, not without some fanciful loss in its essence.

  And now you drive a car on the streets of a lowly, unscrupulous town.
 All right, you were home, at ease, dreaming of the naked playboy playgirls, watching the news, a soccer game, having lunch, savoring a nice plate of pasta with a cold beer and such. Then you have to get on your car and leave to go see about a prolem.

  You put a single wheel on the street and a portion of your brain realizes that this fucking automobile is a mortal thing, man.
Because it really is a mortal thing. Shit, there are millions of deaths every year due to traffic accidents all over the world.

  Your brain and your genes, unlike you, are not fooled by the NGOs, with the killjoy gang, by the politically correct and the polished civility of the internet  social networks.

  Therefore:
You are all cool and dany. But, in the street, you're ready to fight. Look it here Lady Glassworth, wait for me ‘cause I’m gonna survive, big mama.

26 novembro 2010

Não gosto de cães

Olhando minha cachorra gorda, de quem eu gosto muito, é que fui perceber que não gosto de cães. 
Estou sendo tão contraditório como um cão, um animal extremamente contraditório. Porque o cachorro doméstico, com essa denominação que nenhum animal que tenha certo brio gostaria de possuir, é o bicho que mais ataca pessoas em todo mundo.
Eles latem na sua orelha, quando você passa por um portão qualquer, andando pela calçada, e o nível de decibéis é alarmante e eu gostaria de portar um lança-chamas, daqueles grandões, da segunda guerra mundial, e incinerar o infeliz.
Porque são bichos infelizes e precisam de cuidado, de carinho, de afeição, de companhia, de passeios. Quem agüenta? E deveriam estar acostumados com todas as pessoas - são pessoas, caramba. Supõe-se que um cão doméstico foi criado por pessoas, desde quando era um bostinha - mas não. Latem e mordem. Você vai fazer uma festinha no animal, um poodle, e a mulher, a dona dele, que anda com ele no colo, avisa: "ãh... ele morde", e complementa, se dirigindo ao cão: "né, fofinho da mamãe?"
Eu realmente não estou preparado psicologicamente para ser ameaçado por um poodle. Nem ser atacado por um pincher que não chega a pesar meio quilo. E, finalmente, eu me recuso a concordar com mulheres que acham um yorkshire, ou qualquer outra minúscula aberração peluda, uma coisa linda.
As "raças" caninas são apenas aberrações genéticas, artificialmente produzidas e se você soltar um desses cãezinhos peludos na floresta, ele vai morrer em poucas horas, levando com ele a triste memória do seu extenso pedigree.
Ok, foram feitos para companhia humana, para deleitar seus donos. Mas como é que um merdinha desses inferniza todos os vizinhos humanos com uma agressividade desproporcional ao seu tamanho ridículo? Eu gostaria de amarrar um desses numa coleira e chutar, perto dele, uma bola contra uma parede, repetidas vezes, só pra ele ver. Só pra ele sentir como a bola bate com força contra a parede e só volta porque é uma bola, não um pedacinho de carne e ossos. Quem sabe, naquele pequeno cérebro, a ficha caía?
Os cachorros grandões são piores, claro. Simplesmente porque são mortais retardados mentais. Mas minha cachorrona gorda, 40 quilos de ternura, está bem aqui no meu pé, enquanto lanço vitupérios contra sua natureza. Abana o rabo toda vez que eu estico o pé em sua direção, pra fazer um carinho nas suas costas. E ronca, a danada. É uma besta adorável.

17 outubro 2010

Óia só, Lady Glassworth

Bem, eu estava dirigindo e me ocorreu a resposta à questão: por que o motorista comum pode virar uma besta enraivecida no trânsito?
Em casa ele mal consegue dizer não pra sua mulher, que costuma dirigir um automóvel de forma mais civilizada, como dizem as estatísticas.
(Mas ela também é capaz de infernizar um simples café da manhã com uma eficiência que vem diretamente da cozinha de Satanás. Ou seja, na capacidade de imitar as bestas infernais a mulher ainda ganha do homem.)
Mas isso é um outro assunto. O homem, estou falando do homem comum, se é que isso existe, é possuído por bestas infernais principalmente no trânsito, quando dirige.
A pergunta é: por que um pacato cidadão se transforma em uma besta-fera ensandecida, ao volante da porcaria do seu Fiat 1.0?
A resposta tem a ver com a memória atávica, mesmo que o cara seja atualmente um modelo de frio discernimento, tipo um burocrata paulista.
Imagine só, você está lá na Europa, mil anos atrás, sei lá, e se prepara para um esporte bem popular na época: aquele negócio da justa, da competição entre cavaleiros.
Você tem um pedaço de pau maciço, uns três metros de comprimento. Na ponta tem um ferro pontudo incrustado. Aquilo pesa bastante, tanto que vem com uma correia pra você dependurar no ombro pra poder, mais ou menos, manejar a lança.
'Manejar' é forma de dizer. Você consegue, no máximo, apontar o espeto gigante contra seu adversário. É isso aí, você tem um adversário com um espeto igual ao seu e que virá pra cima de você montado num cavalo.
Você também tem um cavalo e você é içado e colocado em cima dele. Note bem, você é 'içado' porque não pode montar sozinho, já que está vestindo uma armadura de ferro que pesa por volta de cinquenta quilos ou mais. E o cavalo é daqueles grandões, de canela grossa; um cavalo necessariamente cavalar, já que tem que suportar seu peso, a armadura, o escudo (você também tem um escudo grandão) e o peso da própria armadura equina.
Muito bem, você já está em cima do cavalo. A sela tem um encosto traseiro, pra você não virar pra trás. Você tem que estar muito bem equilibrado naquilo porque senão, se você tombar demais pros lados ou pra trás, você não consegue voltar à posição anterior.
Ok, eles conduzem o cavalo, com você em cima e te colocam numa espécie de corredor. Do outro lado do corredor tem um cara de armadura que também mal consegue se mexer, montado em outro cavalo.
Aí eles dão um sinal. Você mal tem tempo de abaixar a viseira do seu elmo. Claro, você tá usando um elmo de ferro e ele tem uma viseira, que você baixa sobre os olhos. Pode ser uma espécie de grade, podem ser dois furinhos numa peça de metal. Quer dizer, você não está vendo muita coisa na sua frente. Você aponta sua lança, na base do cálculo de onde o adversário estava e, enquanto isso, o cavalo desembestou ao longo do corredor (esse tipo de cavalo adora fazer isso), indo loucamente ao encontro do outro cavalo, que vem bufando da mesma forma desembestada.
A ideia geral da coisa é que você pretende desmontar, perfurar, quebrar, partir ao meio o seu oponente, na base do impacto puro e simples. Mesmo sabendo que ele tem as mesmas perspectivas em relação a você.
Vocês avançam mais ou menos a quarenta quilômetros por hora, cada um, um contra o outro. A porrada vai ser a oitenta por hora, pros dois. Você talvez se lembre, nos segundos finais antes do impacto, que Lady Glassworth está assistindo, com aqueles olhos doces, e você está levando seu lencinho perfumado amarrado com um lacinho delicado na sua manopla direita.
Você ainda pensa, numa última ebulição de adrenalina e testosterona misturadas que, se escapar dessa, vai traçar Lady Glassworth na marra, quer ela queira, quer não.
Uma experiência dessas, devo dizer, fica gravada no cérebro para sempre, se você sobreviver. Você pode morrer. Sem dúvida você morre algum dia mas os genes dão um jeito de transmitir essa experiência pro seu filho. Seu e da Lady Glassworth. E vai passando de geração em geração com alguma perda imagística mas intocada em sua essência.
E agora você dirige um carro nas ruas de uma cidade vagabunda e sem escrúpulos. Tudo bem, você estava em casa, tranquilo, sonhando com as coelhinhas da Playboy, assistindo o noticiário, o futebol. Ou durante o almoço, saboreando um macarrãozinho básico com cerveja e tal e coisa. Aí você tem que pegar o carro e sair pra resolver um pepino qualquer.
Você põe a roda na rua e uma região do seu cérebro percebe que essa porra de automóvel é uma coisa mortal, véio. Porque é uma coisa mortal mesmo. São milhões de mortes por ano em acidentes de trânsito no mundo todo.
Seu cérebro ou seus genes não se enganam como você se engana com as ONGS, com a turma do deixa disso, com o politicamente correto ou com a civilidade envernizada das redes sociais da internet.
Então: você tá todo bonzinho e tal. Mas na rua, dentro do carro, você sai pro pau. Óia só, Lady Glassworth, espere por mim porque eu vou sobreviver, minha princesa.

15 outubro 2010

Wandeir e seus problemas

Penso em Wandeir e seus problemas, a começar pela minha dificuldade em lembrar seu nome. Porque eu preciso dos serviços dele. Estou construindo uma casinha na beira de um lago e Wandeir tem um ferro-velho, um topa-tudo - eu não sei definir a razão comercial da coisa - e Wandeir vende coisas que eu preciso.

Coisas usadas, vigas usadas de madeira e mesinhas de ferro usadas, tambores de plástico e grades de portão. Coisas pelas quais eu pagaria uma pequena fortuna nas boas casas do ramo e nas quais eu seria tratado como uma rameira velha na hora de pechinchar. Pago algo em torno de 40 reais por uma viga de madeira de 5 metros de comprimento e que pesa 150 quilos, no mínimo. Um pedaço de peroba pura, sei lá, escurecida pelo tempo e pela indiferença humana (não resisti à frase de efeito, sorry).

Essas árvores quase não existem mais e na Europa você pagaria uns 1000 euros por um pedaço de paraju muito menor. Essas madeiras estão em extinção e eu não me importo nem um pouco em ter um exemplar sustentando a quina do telhado da minha modesta varanda, perto de um lago muito calmo. O espírito da árvore original talvez se sinta mais confortável na minha varandinha que dá para uma mata, que não é nenhuma amazônia, mas é mato e tem lá seus curupiras e, quem sabe, seus elfos imigrantes.

Mas Wandeir é um problema brasileiro sem solução para mim. Wandeir, Wantuir, Josilene, Joiciene e Joiciane, Edirley e Edirlene, e Josimar e Jalmir e Wesleison. Eu simplesmente não consigo me lembrar dos seus nomes, saber quem é quem e qual a diferença que provavelmente existe entre eles. Mas dirigem caminhões, levantam muros e lavam roupas - aprendi com Ivailson a arte da mistura para o concreto de pisos, feito no olhômetro e, onde o engenheiro hesita, Ivailson concretiza logo. Menciono Gaudi enquanto o concreto se espalha lentamente pelo chão, mas nem Ivailson ou o engenheiro , que se chama Jesuino da Silva, parecem sequer entender o que eu disse. Me olham de outro planeta, esse que fica dentro das sombras de um Brasil; invisíveis os dois sob o manto da invisibilidade desses nomes surreais.

28 outubro 2009

Rebatendo (só um pouco) Vargas Llosa

On line, na revista Piauí, um belo e longo texto de Vargas Llosa em defesa da literatura dá o que pensar. Mas pensar sobre literatura é uma faca de vários legumes. Milhares de escritores, mesmo os considerados grandes escritores, fazem da literatura uma atividade simplesmente sombria. Não tenho mais a convicção de que a literatura seja a luz no fim do túnel, o túnel escuro da estupidez humana (sic). Nem que espalhe sequer algumas lâmpadas, mesmo que sejam essas lampadinhas vagabundas de natal, piscando com seus 25 watts de euforia natalina pelas paredes desse mesmo túnel. Em suma, não acredito mais que a literatura ilumine os desprovidos de luz ou de lanternas.

Frente ao irrefutável argumento de Vargas Llosa de que a literatura promove, protege e dinamiza a linguagem humana posso contrapor, como um advogado do diabo, o fato de que a literatura também é a indústria metafísica da angústia. A maioria dos autores citados carinhosa e saudosamente por Llosa - grandes autores de quem, aparentemente, é preciso ter saudades - são exímios tecelões de uma rede de nós cegos, iguais entre si pela qualidade comum de provocar angústia.

Não sentir essa angústia e continuar pulando alegremente de um inferno pro outro é algo que me faz duvidar da capacidade cognitiva de qualquer leitor - o que, por si só, contradiz a tese de que o exercício da leitura amplia a percepção geral do homem. A noção do abismo deveria ser natural mas uma enorme parte da literatura fomenta o salto suicida, sem para quedas. Por outro lado, perceber a angústia e gostar dela a ponto de usá-la como travesseiro é um negócio bizarro demais, pra não dizer doentio.

"O diabo na rua (leia-se: no mundo), no meio do redimunho (leia-se: literatura)", está rindo discretamente.

22 outubro 2009

Velhas senhoras

Tempo de esquecer as velhas. Também já era tempo. Elas estão no mesmo lugar de sempre e acenam para mim com os braços magros. Alguns gordos.Essas velhas cairão no olvido, palavra irônica para quem não quer mais escutar seus sussurros. São as esperanças, as promessas, algumas amizades, muitas lembranças. É tempo de esquecer essas velhas senhoras tristes.

18 setembro 2009

Algumas observações do observatório.


As gavetas com suas coisas interessantes. Mais uma pequena obra que não quer dizer nada e da qual eu nem me lembrava mais. Continuo sem lembrar. Claro, dei uma melhorada nas cores que estavam bem desbotadas.

29 janeiro 2009

A Máquina Maligna contra o Marasmo

Desenhos antigos às vezes são engraçados. A gente perde contato com eles e, quando vê de novo, acha que eles são mesmo engraçados. Quando foram feitos, não deram a impressão de que eram engraçados, apesar da intenção ter sido essa, e foram relegados ao velho "ostracismo das gavetas".

A história em quadrinhos não foi feita, mas ficou esse desenho do cara nervosinho que tinha a M.M.M., a Máquina Maligna contra o Marasmo, que ele ganhou na sorte, num jogo de pôquer contra um psicanalista bêbado. E ele acionava a máquina contra qualquer dificuldade, desde dores de dente às dificuldades de entender a conversa chatinha das estudantes da PUC. Digitava um nome qualquer, tipo "Chitãozinho e Xororó" e ajustava a alavanca num dos 5 níveis básicos.

A máquina realmente não fazia nada demais, só emitia sons de coisas explodindo e gritos de dor. Era só para aliviar os estressados, mas o psicanalista que a inventou percebeu que os pacientes estavam ficando viciados nela.

22 janeiro 2009

O ostracismo das gavetas (1)

Achei mais uma caderneta, mas não estava nas gavetas, estava no meio das roupas velhas no fundo da prateleira superior do armário. Eu costumo comprar essas cadernetas, caderninhos de papelaria de subúrbio, 70 centavos um, 1,65 reais o outro. Bloquinhos de papel vagabundo, de 12 x 6 cm, por aí.

Eu ando com esses troços, pretendo anotar telefones e recados, anoto, mas perco todos. Eu encho esses pequenos blocos de garranchos, desenhos e textos sem sentido. Escrevo à mão e, à medida em que vão ficando cheios, eu os troco por outros e, assim, tenho algumas dezenas de bloquinhos espalhados pelas gavetas. Às vezes acho algum do qual eu não me lembrava.

Não tenho I-Fode (é foda), notebuque ou coisa que o valha. Penso em comprar um, mas eles fazem tanta coisa que fico meio cansado em pensar nas possibilidades. Esses aparelhinhos são projetados para conexões, a palavra chave é conexão: com gentes, com seu e-mail, com telefones, com rss, feeds, com twiter, com o flickr - a aflição proveniente dessas práticas não me parece boa.

Quero a desconexão, cada vez mais, do mundo e da aflição tecnológica do mundo. Me equilibro parcamente no meu próprio ostracismo e meus velhos bloquinhos de anotações são o espelho dessa minha tendência de ostra fechada, ou fechando-se. E ainda, rebelde como o adolescente meio idiota que eu fui, com o fôdas ligado.

Mas achei esse bloquinho, do qual não me lembrava e, olhando suas páginas minúsculas, achei alguns textículos mirrados (assim mesmo, com "x"). De vez em quando vou postar um textículo desses (porque acho eles engraçados), inaugurando essa série que eu chamo, meio pomposamente, de "O ostracismo das gavetas". Quem sabe o título sirva para dar mais importância ao que era apenas para ser literatura de traças. Ié, ié, quem sabe.

Caderneta Apontamentos
Espiral 1/6
Contém: 40 folhas
Formato: 72 x 105 mm
pág.6:

Eu tinha quarenta e noves fora, anos sem pressa, quando o azul vitalício de um céu junino estabeleceu limites para meus peidos: ao norte, o mais nefasto; a leste o súbito peido das manhãs; a oeste o peido crepuscular, do silêncio sob as cobertas; ao sul o sulfuroso peido alucinado dos trovões.
Quando defini essas coisas, depois de uma noite inteira de troglodismos sem sentido - eu estava tentando quebrar, sem sucesso, a porta do cofre - já era de manhã e alguém, que não sei quem, ligou. Três tristes trins foram expelidos pelo aparelho, peidei em uníssono, no esforço para me levantar do chão, da ressaca, e atender. "Alô?", mas alguém, que não sei quem, desligou.

15 janeiro 2009

Um Batman muito bobo

Tenho lido, aqui e ali, elogios ao último Batman do cinema. Aqui na rede há um coro de embasbacados, ali na imprensa, mais ainda. Coisas elogiosas demais sobre o ator, o personagem gay do Balacobaco Mountain , que faz o Coringa e que morreu logo depois, a atuação magnífica etc. É inverossímel, mesmo num filme de fantasia. Ninguém coloca bombas em hospitais inteiros, em barcaças cheias de gente e de guardas armados e controla tudo sozinho e à distância. Bomba é um negócio meio complicado, sabe? Precisa de pessoal técnico e especializado para instalar e acionar.

O Coringa anda sozinho e costuma matar seus parceiros (a primeira cena do filme). Ou seja, qualquer meliante relativamente esperto ia pensar duas vezes antes de se associar ao Coringa, porque as notícias correm e os bandidos logo logo perceberiam que o Coringa não é confiável. Associações criminosas (ou qualquer outra) têm, necessariamente, que promover uma confiança mínima entre seus membros para poder funcionar direito. Mas o Coringa consegue fazer coisas que nem uma equipe bem treinada consegue. Encher de bombas hospitais e barcas. Treinar cães. Foi ajudado, claro, pela equipe de produção do filme, seus únicos asseclas. Isso estraga qualquer filme. Quando você percebe que o personagem é ajudado, amparado, paparicado pelo diretor do filme, pela equipe técnica, pelo roteirista, o filme vira propaganda. Propaganda pessoal do diretor.

E o Batman é um babacão, que investe milhões de dólares em tecnologias sem sentido para fazer frente ao palhaço genial. E não consegue, ou quase isso. O Batman, que era pra ser um ente das sombras, é transparente como uma calcinha de seda e é completamente previsível em sua rigidez mental - um soldado burro, cheio de pruridos que escorrem como gotas de água contra o guarda-chuva de aço do Coringa. E que raio de voz é aquela, de onde eles tiraram a idéia daquela voz que parece a de um sujeito sentado num vaso sanitário e fazendo força para soltar algo mais além da voz? E desde quando o Morgan Freeman tem cara de cientista? E em qual maldita fragilidade mental se apoiam os princípios morais do Harvey Dente de cobra, pra ele virar um fascínora de uma hora pra outra? Só porque ficou feioso como Duas Caras? Só porque seus planos não deram certo? Que troço mais pitizento, um histerismo de criança mimada. A mensagem subliminar é que o bem é uma opçãozinha frágil demais. O Batman é frágil demais, o comissário Gordon é frágil demais. Só o Coringão tem poder. E é, sem muita discussão, um cara muito nojento.

Fiz uma pergunta para um amigo meu, na época do Sin City: quantas balas são necessárias para matar um personagem de Sin City? Varia muito, de 1 a 457 balas, conforme o capricho do diretor. No velho Matrix era: quantas balas são necessárias para se acertar um alvo? Também varia, de 1233 a 3720, também conforme o estardalhaço planejado da cena. A pergunta para o filme do Batman é: quantos ajudantes você precisa para fazer o que o Coringa fez no filme? A resposta é: você precisa só da equipe de produção do filme.

Bah, o Batman é mais um bestalhão nesse filme. Ainda não conseguiram um diretor à altura. Esses diretores de cinema precisam de uma temporada no Asilo Arkhan, ou talvez de uma certa, hã..., cultura humanística.

08 janeiro 2009

Adeus ao Zé

Saindo dos últimos dias de dezembro, quando a chuva desceu como cortina, contínua e fina, esburacando as ruas adjacentes - a rampa que meu automóvel sobe já não é mais a mesma, os pivetes estão molhados sob a chuva e os caminhões derrapam nas curvas fechadas que descem da Raja Gabaglia até a Barão. A chuva é um troço meio triste e veio um dia de sol, afinal, mas fiquei sabendo, só agora, do falecimento, em 2006, do meu antigo incentivador literário. José Maria Cançado. Ficamos amigos durante o ano em que convivemos esporadicamente - já tem muito tempo - e exercemos a amizade nos raros encontros subsequentes. Acho que a última vez que eu o vi foi no Bar Brasil, bebendo, solitário, sentado numa das mesas. Eu estava em outra mesa, com outros amigos. Chamei, disse que se sentasse conosco, mas ele recusou educadamente porque esperava alguém. Uma mulher. Vi quando ela entrou no bar, quarenta minutos mais tarde. Não a conhecia.

José Maria escreveu a biografia de Drummond, Os Sapatos de Orfeu e eu possuía um dos primeiros exemplares, autografado. Ele era modesto e me explicou que o livro era só uma tentativa de encaixar Drummond num contexto histórico, "mas pessoal", acrescentou. O livro, ainda bem, não tem nada de modesto.

Drummond não era o poeta preferido de José Maria, mas é historicamente importante e a cultura, como diria o Zé, precisa manter seus alicerces aparentes. E eu tive a honra de ser, lá pela casa dos vinte anos, um dos poetas preferidos do Zé Maria.

Ele me "descobriu" por acaso, quando eu comecei a procurar pela autora de um livro de contos que eu tinha comprado num sebo. Porque era mineira e estava em Belo Horizonte e porque o livro dela, O Olho Insano, era também insano e tinha uma qualidade literária insana. O nome da autora era Lucienne Samor e eu comecei, naquela época pré internet, a procurá-la pela cidade e vim conhecer parte da pequena tribo de escribas que se movia quase marginalmente por pequenas editoras, pequenas salas e escritórios também pequenos de gráficas obscuras. Conheci Lucienne, uma moça magra, de olhos inquietos, vivendo sua sina de talento genial e desconhecido. Avessa a elogios - mesmo porque elogios não enchem barriga -, me pediu dinheiro emprestado, que eu não tinha, mas arranjei pra ela, e nunca pagou, eheheh. Tudo bem. Mesmo. Tínhamos em comum o fato de sermos, nós dois, absolutamente inaptos para lidar, gerar ou gerenciar qualquer quantia em dinheiro. O dinheiro era - oh, deus, como fomos jovens - uma espécie de estorvo em nossas mãos.

Conheci o Zé Maria e mais alguns autores como o poeta negro Adão Ventura, o escritor Caio Fernando Abreu, que não era mineiro mas passava por lá e outros que não me lembro o nome, só os rostos.
José Maria se interessou de imediato por meus poemas e, naquele jeito tímido e atrapalhado, começou a me incluir na roda. Publicou um deles na extinta revista Inéditos, e não era, nem de longe, o nosso poema preferido, mas isso sempre existe: os caras que escolhem, o conselho editorial das revistas, sempre escolhe errado. Zé Maria se desculpou por isso, eu me lembro. Uma desculpa absolutamente desnecessária, eu disse. Através do Zé recebi a aprovação de um outro velho poeta e literato e por causa do incentivo do Zé fui ao Rio, mostrar meus trabalhos para Carlos Drummond e Paulo Mendes Campos. Foi o suficiente para me manter, até hoje, com a caneta (ou o teclado) perto das mãos.

Comentei depois com o Zé minha ida ao Rio e ele disse, resumidamente, que agora era comigo, que era uma questão de empenho e paciência. Só isso. Bem, não segui seu conselho e meu empenho é uma coisa quase ridícula.

E soube só agora, quase três anos depois, que o Zé morreu. Isso dá uma medida da minha distância dos meios literários. Não lamento essa distância, lamento apenas a ausência do Zé. Não posso mais mostrar meus poemas pra ele e não podemos mais conversar sobre, ah, qualquer coisa. Espero que não tenha sofrido. Espero que ele ainda exista em algum lugar, sei lá, que esteja esperando em algum ponto entre aqui e o infinito. Uma frasezinha de efeito duvidoso, mas o que não é duvidoso em literatura? A leste do Éden, véio, tudo de bom, nos vemos pela aí.

15 outubro 2008

Patos da Patagonia

Acho que tem que clicar na imagem para ver ampliado, não sei.

25 agosto 2007

Os Amigos Admiráveis - parte 4

Tentei descobrir qual o princípio ativo, ou qual a pessoa, que norteava a cerimônia de entrega dos prêmios, já que havia uma pequena multidão mas nenhum indício de ordem ou coisa que o valha. O velho auditório do campus estava com a lotação pela metade, mas a algazarra reinante parecia aumentar o número de gente.
Lá na frente, sobre o tablado, algumas cadeiras vazias, perfiladas atrás de uma mesa, também vazia, a não ser pelo único microfone, colocado no centro. Alguns caras estavam rodeando o microfone e conversavam entre si.
Eu supunha que eram os encarregados de fazer a aparelhagem de som funcionar, mas pareciam absortos numa conversa entre eles e que não tinha nada a ver com o microfone. Um dos caras, finalmente, deu uns tapas na boca do microfone e disse: "som, som".
Um assovio agudíssimo, com a potência de mil decibéis, algo que soou como um eco de uma briga de gatos gigantes, encheu o salão, ensurdecendo quem estivesse próximo dos autofalantes e um grasnido alto, de alguma besta mecânica inominável, rompeu em soluços espasmódicos, enquanto alguns caras se movimentaram rápidamente em cima do tablado, e a coisa pareceu funcionar, e fez-se silêncio súbito.
Novamente o cara bateu no microfone - "Som, um, dois, três, som" - e alguém fez sinal pra ele de que não havia som algum. O cara vai até o fundo e sai tateando pelos cantos da parede, mexendo nuns fios. Um outro cara fica com a boca próxima ao microfone, gritando alguma coisa inaudível, até que a aparelhagem subitamente volta a funcionar, ampliando absurdamente a voz do sujeito: "...ta que o pariu! Funciona, carái!!!" Risos na platéia, assovios; alguém puxa uma saraivada de palmas. A cerimônia de entrega dos prêmios literários estava começando.
A mulher alta e magra, idade indefinida entre quarenta e cinquenta, conhecida como "a polaca", uma das professoras mais conhecidas da universidade, se aproxima do microfone sobre a mesa e tem que se curvar para dizer: "Bom dia!" Estávamos em pleno sábado, manhã de sábado, por volta das dez horas da manhã.
O campus estava vazio quando cheguei, apenas a pequena aglomeração na entrada do auditório marcava o evento, programado para as nove horas. De uma manhã de sábado. Sabe-se lá por quê. Parafraseando Erasmo Carlos, logo que eu cheguei, notei Joaquim com um copo na mão. Assim que ele me viu, veio pro meu lado:
"Cara, olha só isso aqui."
Eu olhei pro copo em sua mão - era a única pessoa que tinha um copo na mão - mas ele me corrigiu logo:
"Não é o que eu tô bebendo, sô. Tô falando é dessa confusão toda", e abriu os braços, num gesto que apontava as pessoas em redor.
Me afastei um pouco, instintivamente, mas ele conseguiu não derramar nada do que tinha dentro do copo.
"O que você tá bebendo aí, por falar nisso?"
"É só água, sô. Tô com a boca seca. Quer dar um gole?"
Ficou me olhando insistentemente, estendendo o copo em minha direção, esperando minha resposta. "Não. Tudo bem, - eu disse - cê pode andar por aí em paz, com seu copo de água."
Foi o melhor que eu consegui responder. Joaquim deu alguns pequenos goles, absorto em si mesmo e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, perguntou de repente: "Cadê a Cida?"
Respondi o que eu achava óbvio:
"Pensei que ela já estivesse aqui, com você."
"Ué... por quê?", perguntou ele. Realmente eu não sabia por quê. Ia dizer que eles sempre estavam juntos, ou coisa assim, quando vi, de longe, que Cida estava chegando, caminhando pela alameda que ia dar no auditório.
"Lá vem ela", eu disse.
Joaquim olhou para onde eu olhava, ficou na ponta dos pés e custou um pouco para identificar Cida no meio das pessoas que ainda estavam chegando. Tive que rir porque não havia razão nenhuma para ficar nas pontas dos pés, não havia ninguém na nossa frente e Joaquim já era alto o bastante para enxergar acima de quase todo mundo. Mas ele continuou na postura de quem olha por cima de alguma multidão, até que Cida nos viu e se aproximou, sem alterar o passo.
"Ahá! Maria, a parricida! Até que enfim, aparecendo!"
Desde quando Joaquim soube que Cida brigara com os pais para ingressar no curso de comunicação, em vez de estudar medicina, como eles queriam, Joaquim deduziu que ela "matou os velhos de desgosto profundo". Portanto, Maria Aparecida Velásques, nome que ela própria detestava, como confessara algumas vezes, era um nome perfeito para os trocadilhos de Joaquim. Ele se queixava, por exemplo, de sua acidez - "A relação com a Cida é ácida". Ou dizia que as caminhadas com ela eram "acidantadas" e costumava praticar mais outras piadinhas infames. Cida nunca se incomodou. De vez em quando dava uns tapas no ombro dele, pra ele ficar quieto. Riam juntos, ele mais, aparentemente adorando a reação dela.
Cida parou na nossa frente, disse "Oi" para ambos, olhando para baixo, ajeitando alguma coisa com os pés, como se as sandálias estivessem apertadas ou algo assim. Deu um passo em minha direção, como se estivesse testando as sandálias e levantou subitamente a cabeça para me beijar o rosto, de leve e rapidamente, sem me dar tempo para retribuir; foi até Joaquim e empurrou-o com ambas as mãos, em direção à entrada do auditório, "Vamos, bobão."
Fomos e nos sentamos, os três, a uma distância relativamente longe do tablado, atrás das oito ou dez primeiras filas de cadeiras, já ocupadas. Estiquei as pernas, até onde consegui, me recostei o melhor que pude e me preparei para enfrentar os discursos, os agradecimentos e o que mais viesse. Eu tinha ido apenas por insistência de Joaquim; não acreditava em nenhum resultado positivo em relação ao "nosso conto"; nem ao menos que ele estivesse entre os finalistas. Cida, ao meu lado, olhava fixamente para frente; depois dela, Joaquim batia incessantemente os joelhos. Pensei que a manhã ia ser uma longa manhã.

07 julho 2007

Os Amigos Admiráveis - parte 3

O ônibus balançou, rodou sobre bueiros mal fechados e produziu um som metálico, alto. Cida olhou pela janela e viu passar, num adeus sorridente, o rosto da moça que anunciava um novo perfume, num cartaz gigantesco, fincado sobre a esquina da rua, acima do lote vago que há muito tempo estava assim - "tão vago como meu coração" – pensou ela, lembrando a frase boba de Joaquim e que ela, Cida, não conseguia esquecer.

Ali se levantou para puxar a cordinha e dar o sinal para saltar no próximo ponto, quase na esquina da rua que levava diretamente à sua casa, um quarteirão adiante. Esperou alguns segundos para que o passageiro ao lado se desse conta de que ela queria descer e afastasse os joelhos, dando passagem.

"Não obstante os pequenos obstáculos," - Cida recitou de cabeça, em silêncio - "obteremos, com nossa obscena obstinação, o obscuro objeto de desejo".

Joaquim escrevera essa frase num dos cadernos que ela deixara sobre a carteira, na primeira vez em que se encontraram, há alguns anos.

Viu o rapaz magro e levemente desengonçado, no meio dos outros estudantes que entravam na sala de aula. Ele estava batendo com uma caneta na palma das mãos, tentando fazer, no tapa, com que a caneta funcionasse. Daí ele notou o caderno dela, solto em cima do tampo da mesinha e, ainda sacudindo freneticamente a caneta, abriu o caderno, despreocupadamente, e começou a escrever alguma coisa.

Ela se lembrava de como havia se aproximado por trás dele e dito: "Ei! Esse caderno é meu." Ele a olhou sobre os ombros, virou-se, meio atrapalhado mas sorrindo e lhe disse que estava tendo dificuldades com aquela caneta mas que, por algum motivo, naquele caderno ela tinha funcionado.

"Olha aqui" - disse ele, mostrando a ela a página rabiscada - "ainda tá falhando um pouco, mas já dá pra ler. Esse caderno é seu, é?"

Cida tirou-lhe o caderno das mãos e disse calmamente: "Cê não vai escrever mais nada nesse caderno, cara."

Ela sorria quando se lembrava desses detalhes, sorria ao perceber como havia radiografado imediatamente o sujeito que, mais tarde, se apresentara como Joaquim. Percebera a admiração, nunca confessada, estampada nos olhos dele, na medida em que ela não se alterava com suas pequenas impertinências, achava divertida a lealdade inconsciente que ele lhe dedicara desde então, a forma como ele prestava atenção a tudo o que ela dizia. Gostava do poder que ele lhe outorgava sem saber, da possibilidade potencial, mas nunca utilizada, de manipular Joaquim como quisesse.

Guardou, por absoluta falta de outra idéia melhor, a frase escrita no caderno. Leu aquilo diversas vezes, desde então, e achava engraçado como a frase a ajudava em momentos nos quais não sabia bem como reagir, ou não sabia o que pensar.

Cida desceu do ônibus e caminhou com seus passos ritmados, como sempre, passando sob as copas das árvores que margeavam sua rua, até chegar em casa. Atravessou a sala, onde sua tia via uma reprise de novela na tv e apenas abanou a mão, em concentração total. Checou, na cozinha, o quadro de cortiça onde se penduravam as contas a pagar, abriu a geladeira e verificou as possibilidades para o jantar dali a pouco, parou na porta do banheiro e viu se as toalhas estavam em ordem para o banho e então foi para seu quarto. Fechou a porta e sentou-se na cama, mas se levantou quase que imediatamente, a imobilidade seria perigosa agora, e foi até o guarda-roupas.

Do lado interno da porta, que ela abriu, o grande espelho refletia seus gestos e ela se observou, enquanto escolhia roupas e começava a se despir. Viu seu próprio corpo magro, estranhamente nítido em sua palidez, refletido no espelho, destacando-se na penumbra que já invadia o quarto no fim do dia.

"A despeito de não ter peitos e apesar do peso mínimo..." – outra frase de Joaquim, quase uma descrição literal de si mesma, que ela deixava rodar em sua memória. Um artifício calculado para não pensar na outra coisa, mas sentia que estava prestes a ceder, que estava prestes a ir de encontro à questão central, a coisa que a atormentava em silêncio, dentro de seu coração. Ele estivera tão próximo, outra vez. Podia ver de novo suas mãos quietas, os gestos lentos de seus dedos tamborilando sobre os joelhos. Podia ver seu rosto de perfil, contra a luz da janela. Cida se perguntou, pela enésima vez, qual deus desgraçado a ferira de morte, em qual dia. Em qual momento descera sobre ela oferecendo seu inesperado cálice de veneno. E ela bebeu, muito mais do que gostaria. Porque o veneno direcionou seus olhos para aquele a quem ela não ousava olhar mais que o necessário, porque não confiava em seus próprios olhos, com medo de que revelassem a ele sua frágil súplica, a intensidade contida dentro de si, que poderia facilmente vazar através da traição desses seus olhos.

Hoje, beijara sua testa, ao sair, como já fizera outras vezes. Um beijo leve, tão difícil quanto representar uma farsa sem enredo ou fim, e tão necessário para manter essa mesma farsa. Essa farsa que, ao menos, mantinha a ela, Cida, circulando ao lado dele, no campus da universidade, nas calçadas do centro da cidade, nos cinemas, nos pequenos bares que freqüentavam ocasionalmente, no apartamento de Joaquim e em outros lugares – não fazia diferença, contanto que ele estivesse perto. "Até quando?", era a pergunta que ela não ousava responder.

Cida retirou do guarda-roupas uma grande camiseta e, assim vestida, se dirigiu para o banheiro. Nua, sob o barulhento chuveiro elétrico, observando as nuvens de vapor que umedeciam os ladrilhos, Cida murmurou, em surdina, enquanto traçava lentamente, com o dedo, um pequeno coração, no vapor condensado sobre as paredes de mosaicos coloridos:

"Não obstante os pequenos obstáculos... obteremos com nossa obscena obstinação... o obscuro objeto de desejo..."

Agora a frase adquirira seu sentido oculto, seu peso real, sua verdadeira face sem máscaras. Cida apagou, com as bordas da mão, o desenho do minúsculo coração e regulou a torneira para que a água caísse com maior volume e, tombando a cabeça para trás, as duas mãos imóveis, levemente apoiadas sobre os seios, deixou que a água batesse em seus lábios, queixo, pescoço, clavículas, ficando quieta assim por alguns momentos, esperando, talvez, que a água atingisse algum ponto dentro de si mesma, que aliviasse, que lavasse a dor, escondida lá dentro, no mapa mal traçado que ela chamava de "minha zona sentimental".

07 maio 2007

Os Amigos Admiráveis - parte 2

Joaquim abre a porta e entra assoviando alto, as duas mãos, os dois dedos mínimos, na boca. Dá dois passos dentro da minha cozinha, fica parado e grita:
"Ô! Ô! Cheguei! Já cheguei!"; assovia de novo mais umas duas vezes, bate palmas, "Ô! Ó eu aqui! Cheguei!".
O fato de eu estar visível, a poucos metros de distância, sentado na mesa da cozinha, olhando para ele, não interfere na sua performance. No meio das palmas ele percebe que eu estou logo ali e muda o ritmo, improvisando um samba, enquanto caminha na minha direção:
"Já acordô, acordô/ tomando seu cafezinho/ sentadinho na cozinha/ vai comendo o biscoitinho, ê ôôô, ê ôôô...”
Mantenho meu silêncio, não há nada que eu possa fazer. Quando ele finalmente para na minha frente eu arrisco:
"É, deu pra notar que você chegou..."
Ele sorri, imune à ironia. Está animado, mas isso é uma redundância, em se tratando de Joaquim. Enquanto dou mais um gole no café, observo sua ginástica para se desvencilhar de sua incrível bolsa a tiracolo.
Joaquim usa uma dessas bolsas de lona, enorme, cuja alça poderia circundar duas vezes seu corpo. Ele a enrola no pescoço e passa pelos ombros. A bolsa fica pendurada atrás, na altura dos rins, ou seja, na posição mais difícil para se manusear. Ele sempre tenta abrir a bolsa nessa posição impossível e, quando percebe que não dá, passa a se desvencilhar da alça, num processo indisciplinado de tentativa e erro, como um prisioneiro que tenta se libertar das cordas que o mantiveram amarrado por um longo tempo. Sempre me pergunto como ele consegue se amarrar desse jeito. O processo todo dá a pausa necessária para que eu termine meu café. Finalmente, com o cabelo despenteado pelas inúmeras passagens da alça sobre a cabeça, ele se senta em minha frente, com a bolsa no colo.
“Ta tudo aqui, ó”.
Dito isso, se inclina sobre a mesa e escolhe minuciosamente dois ou três biscoitos de maizena que estão no prato, junto com o pão. Eu o observo pacientemente enquanto ele segura cada biscoito contra a luz que vem da janela e os examina de um lado e do outro.
“Joaquim, todos os biscoitos são iguais”.
“Certo, certo. Mas alguns são mais iguais que os outros”.
“Isso aí é Millôr Fernandes quem disse. Mas não sobre biscoitos”.
“Eu sei”.– Joaquim ainda está olhando para os biscoitos na mão – “Todo mundo procura sempre as coisas que são diferentes. Eu não. Eu, agora, quero ver se consigo achar as coisas que são iguais, sacou? Tudo que for igualzinho...”
“OK, tá bom, deixa pra lá. Só queria saber”.
Joaquim morde um biscoito - “Cê me empresta sua xícara aí”.
“Pega uma ali no armário”.
“Naaa... me empresta essa aí mesmo”.
Eu me levanto, pego uma xícara no armário e, quando volto, ele já está com a minha xícara, na qual despeja um pouco de café. Eu me sento, com a xícara limpa e me sirvo mais um pouco, também.
“E aí, cadê o texto?”, pergunto.
Ele deposita a xícara na borda da mesa, um quarto dela está pra fora do limite do tampo. Eu estendo o braço e puxo a xícara para uma posição menos perigosa enquanto ele abre sua enorme bolsa e retira de lá um maço de papéis surpreendentemente ordenados, envoltos com cuidado por um plástico transparente.
“Cê sabe quantas páginas são?” – pergunto.
“Vinte e três. Fora a página do título e a introdução”.
“Que introdução"?
“Peguei um parágrafo que você escreveu e botei como introdução, ué”.
Eu não estava, no momento, disposto a abrir a papelada e inspecionar o resultado geral.
“A Cida sabe desse negócio de introdução"?
“Foi ela que sugeriu, cara. Liguei mais cedo pra ela, li a sua parte pra ela e ela sugeriu botar a introdução; o título, inclusive”.
“Sei”.– me sinto mais tranqüilo com a intervenção de Cida – “E qual título, afinal, que vocês puseram"?
Joaquim lê através do plástico: “Um hiato no inferno”. E acrescenta: “Suas palavras, cara, a Cida gostou desse negócio que cê escreveu”.
“OK” – eu digo – “se a Cida falou, tá falado”.
Percebo que Cida é uma das poucas pessoas a quem Joaquim ouve, mesmo que ele não saiba disso. Conversamos mais um pouco e lembro a Joaquim que o prazo para a entrega do conto termina hoje, às quatro horas, e que ele ainda tem que tirar as cópias e ir, de ônibus, até o campus, fazer a inscrição. Ele se demora mais um pouco por ali enquanto eu busco algum dinheiro no quarto.
“Acho que isso aqui vai dar” – eu digo, e entrego pra ele algumas notas que ele enfia no bolso traseiro, sem contar.
“Falou, cara”.
Antes de sair ele para na porta da cozinha e vira-se, os dois indicadores fincados no alto da própria cabeça:
“Agora é o seguinte: o velho pensamento positivo, cara. Vê se esquenta esse pé frio chulezento desgraçado que ocê tem”.
Deixa a porta da cozinha aberta e, enquanto eu a fecho, ouço seus passos pulando as escadas do prédio, para baixo, em direção à rua.

09 abril 2007

Os Amigos Admiráveis - parte 1

Talvez a gente tivesse que botar coisas como chuva, vento e mau tempo para criar, literalmente, um clima mais pesado no texto.

A máquina de soletrar, como Joaquim a chamava, era uma Olivetti verde, pequena e ágil e nossa datilógrafa oficial, Cida Velasques, estava sentada no seu tamborete, com as mãos febris digitando o discurso prolixo e tortuoso de Joaquim, que rodava em volta dela olhando para o chão, enfatizando as frases com as mãos, imerso na palinfrasia que ele chamava de “procriação literária” e que, uma vez iniciada, não controlava e Cida, sem pausar as mãos nem por um instante, repetia a intervalos, “dá um tempo, dá um tempo”.

O texto, uma história de puro terror, era estranhamente original na medida em que só continha chavões, os mais usados no cinema e em toda a literatura de gibis, misturando todas as entidades de pesadelo conhecidas, vampiros, lobisomens, almas penadas, mortos-vivos, extraterrestres, múmias, os “ígores”, corcundas ajudantes dos cientistas malucos, os próprios cientistas, gênios do mal e mocinhas indefesas sendo massacradas uma a uma através da história que começava com antigas maldições egípcias e caminhava alucinadamente para o apocalipse no futuro longínquo.

Estranhamente a história não tinha heróis e isso foi o que me chamou a atenção, enquanto eu ouvia, sentado no sofá daquele quarto pequeno, no pequeno apartamento de Joaquim, no vigésimo segundo andar, no centro da cidade. Intervi algumas vezes, quando, por exemplo, a múmia, com a “vingança estampada nos olhos”, atravessava o Mar Morto nadando nas profundezas. “Péra aí”, eu disse, “vamos seguir as regras. Múmias não nadam.” Joaquim parou um instante, reorganizando os pensamentos. “Não?”, perguntou. “Não me lembro de nenhuma múmia nadadora”, respondi. Joaquim, cruzando os dedos das duas mãos e estendendo os braços para a frente com as palmas viradas para onde eu estava, provocando múltiplos estalos das falanges, falanginhas e falangetas, admitiu: “tá certo, tá certo” e mudando o enredo, acrescentou Shriack, o Monstro do Mar Morto - teve que soletrar o nome : X.. R.. I.. etc, que Cida corrigiu: “S, H, R, I, A, C, K. Fica melhor.” - uma das maldições locais que já era milenar no tempo em que a múmia era humana e sobre o qual a mesma múmia, um antigo feiticeiro, tinha poderes. Invocando o monstro, a múmia designou-o como portador da Praga, outra maldição, que se abateria sobre os povos pacíficos do outro lado do mar, livrando-se assim da triste perspectiva de ser uma múmia ensopada quando emergisse nas “margens ocidentais”. “Por que ocidentais?”, perguntei. “Para realçar o conflito entre o oriente e o ocidente”, disse Joaquim. “Olha, o Mar Morto inteiro é oriente.” “É, mas qualquer lugar tem um lado ocidental e ninguém vai prestar atenção nessas coisas.”

Ninguém presta muita atenção nessas coisas, repeti em pensamento e, ainda assim, lá estava eu interessado no final da história e esperando a conclusão, torcendo para que Joaquim não perdesse o fio, a verve, como já vi acontecer em outras ocasiões. Mas ele parecia embalado no seu próprio ritmo e o conto, mal ou bem, caminhava a passos largos, passos de monstro.

Lá pelas cinco horas da tarde perguntei a Cida quantas páginas havíamos percorrido desde o meio dia, hora em que, com os últimos pedaços de uma pizza nas mãos, deixamos a cozinha para nos acomodar no minúsculo quarto; Cida em seu tamborete em frente à mesinha com a Olivetti e um maço de papéis em branco, eu sentado na única poltrona e Joaquim de pé, rodando pelo quarto, indo da janela até a porta, voltando para a janela e olhando para a cidade, gesticulando a mímica que seus monstros lhe inspiravam: os dedos crispados do seu lobisomem, o olhar alucinado do Vampiro das Estradas, o andar trôpego do morto-vivo que procurava a passagem do Hades nos subterrâneos da cidade. Quatorze páginas, na digitação impecável de Cida que muitas vezes escutava sentenças inteiras antes de colocá-las na devida ordem, costurando as falhas, alinhavando as pontas perdidas, destrinchando o novelo em um único e coerente fio de forma que quem lesse aquilo pudesse ter a impressão que se tratava de um conto.

O prazo para a entrega das três cópias exigidas terminava no dia seguinte. O concurso de contos para desenvolvimento de enredos de cinema, promovido pela faculdade de comunicação da Universidade onde Joaquim estudava, oferecia um pequeno premio em dinheiro aos contos vencedores, primeiro, segundo e terceiro lugares, além da publicação dos mesmos na revista literária do campus. Lá pelas seis Joaquim colocou o ponto final na sua história. As idéias ainda o atropelavam, mas o desfecho apareceu inadvertidamente e Cida não deixou que ele escapasse, argumentando que estava bom assim e não permitindo acréscimos. O apocalipse havia chegado e os monstros tomaram a terra. Nesse ponto Cida sugeriu a idéia salvadora: cada monstro poderia ser um político corrupto, um industrial inescrupuloso, um tirano sanguinário, “que também são todos clichês” e o conto na verdade seria uma metáfora sobre o fim da civilização. Joaquim parou e do canto onde estava olhou pra mim, piscando os olhos que ele mantinha exageradamente abertos entre as piscadelas, e murmurou: “Gênio!”

Queria imediatamente trabalhar com Cida na nova idéia mas ela veio com outro argumento, irrefutável: “Tenho que ir pra casa”, e se levantou, foi até a janela onde havia mais luz, tirou da bolsa uma pequena escova e ajeitou seus cabelos curtos, caminhou, ainda ajeitando os cabelos e atravessou a porta da cozinha, rodeando a mesa e entrando no minúsculo banheiro do outro lado. Joaquim estava de pé ao lado da máquina de escrever, olhando as folhas datilografadas, empilhadas ordenadamente sobre a mesinha. Olhava com interesse, mas não tocava nas folhas, como se aquilo fosse algo que ele acabasse de descobrir, jogado por ali.

“Como é que a gente vai fazer, cara? A gente vai ter que bater tudo de novo?” Fui até onde ele estava e peguei o maço de papéis. Li a primeira página e notei o trabalho soberbo de Cida, a leitura resistia ao meu ceticismo. Olhei para a janela e intimamente disse adeus à noite no bar da esquina. Sentei-me no tamborete e coloquei mais uma folha de papel na máquina. “Cê podia fazer uma coisa”, eu disse , “vai lá embaixo e compra umas cervejas”. Joaquim bateu nos bolsos das calças, “no money, man”. “Tá bem”, eu disse, “toma aqui” e estendi pra ele algumas notas. Cida saiu do banheiro, Joaquim disse: ”tô descendo junto com cê”; ela me beijou o alto da testa e saíram os dois pela porta rumo ao elevador.

Li o texto do princípio ao fim, ainda que rapidamente e ponderei a maldição que pesava sobre mim naquele momento: escrever uma segunda parte do mesmo conto, achando passagens históricas que se relacionassem com o que aqueles monstros estapafúrdios estavam fazendo. Não foi tão difícil, o que dá uma idéia de como a história humana, sob certo aspecto, não passa de uma sucessão de horrores variados. Pulei alguns milhares de anos e iniciei minha triste analogia no início do séc. XX, encaixando os personagens desastrosos que todos conhecem e que atravessaram as duas grandes guerras, as outras guerras menores, o holocausto, as tiranias espalhadas a torto e a direito, a grande depressão e por aí a fora. Meu maior problema foi com o lobisomem de Joaquim que era, definitivamente, um monstro simpático. Não tinha, pelo menos, a intenção de ser cruel, apesar de ser. Vagava pelas noites atormentado com sua dupla natureza sem outro objetivo que não o de resolver-se, dissipar seus próprios fantasmas etc. Um monstro de monólogos, shakespeariano, que amava sobretudo a noite e, sem poder prescindir disso, sofria por transformar aquilo que amava no palco de suas atrocidades. Uma frase, no seu único monólogo, fazia do lobisomem um personagem notável: “.. estou vivo, mais vivo do que os que vivem e vão morrer. E, para os que vão morrer, eu sou a morte.” (sic) O melhor que pude fazer com o lobisomem foi torná-lo um símbolo da barbárie latente dos povos, barbárie que desperta ao cair da noite, ou melhor, das bombas.

Joaquim voltou uma hora depois com algumas cervejas. “Demorei, cara, por que o ônibus da Cida demorou. Fiquei lá conversando com ela no ponto.” Colocou algumas cervejas no refrigerador da cozinha e voltou com uma delas e dois copos. Bebemos num silêncio repentino, a janela aberta como um ouvido no vento, captando os ruídos da cidade lá fora, o guincho de freios, alavancas, portas, buzinas dissonantes do final do dia, motores rosnando seu mau humor no tráfego que crescia na hora do rush. Joaquim parecia não ter mais nada a dizer sobre coisa alguma. Foi até a janela verificar alguma freada mais alta que se sobressaiu no ruído do trânsito lá embaixo. Ficou na janela um tempo, o tempo necessário para gritar “ô burrão!” pra alguma coisa nas ruas, sabendo, claro, que a coisa não ia ouvir. “Olha, cara, vou ver televisão no quarto. Se precisar me chama.”

Ele foi e eu fiquei a sós com meu parágrafo inicial, que era o que eu tinha até aquele momento. Ainda não havia chegado no monstro-Sheakespeare que, no texto de Cida e Joaquim, me aguardava algumas páginas depois. Ouvia os sons que vinham do quarto, Joaquim assistia algum desses programas de auditório onde todo mundo, num milagre de homogeneidade meio assustador, vira imbecil, sendo que muitos nunca mais desviram. Quando me levantei para pegar outra cerveja e passei pela porta do quarto vi que Joaquim dormia na posição que se acomodara para assistir ao programa na tv que, agora, já era outro.

Perto da meia noite, entre idas e vindas à geladeira, já tinha terminado minha parte. Estava cansado mas ainda assim deixei um bilhete para Joaquim: “O negócio tá pronto. Acho que produzimos algum tipo de aberração literária. O júri do concurso vai ter que queimar alguns neurônios extras, eu acho. Falta apenas passar a limpo. Vê se você dá um jeito nisso, em tempo hábil. Cê ronca igual uma capivara gorda. Qualquer coisa me liga.” Saí pela porta sem fazer barulho, peguei o elevador, passei pela portaria vazia àquela hora e fui trotando pela calçada, me desviando dos grupos de damas da noite que faziam ponto nas esquinas mais escuras do centro.

Acordei mais tarde que o costume no dia seguinte com o telefone tocando, lá pelas dez horas da manhã. “Alô? Alô? Acabei, cara. Passei a limpo e tudo. Mas tô sem grana pra tirar o xerox. Cê num tem aí não?” Joaquim sempre fala dois alôs ao telefone, pra início de conversa, não importando o que a outra pessoa diga, ou que responda ou não responda ao primeiro alô. “Passa aqui”, eu falei. Eu estava já sentado na mesa da cozinha, tomando meu café quando ele chegou, entrando pela porta dos fundos do meu apartamento que eu, precavidamente, já deixara destrancada depois que ele ligou.

18 março 2007

Turismo

Em Roma,
que já foi de Augusto,
um turista,
exibicionista
e as estátuas,
petrificadas de susto.

05 março 2007

Esses álbuns solitários

Esses olhos sanitários
olhando retos, nada consta.

Essa amargura, esse augúrio
de coisa alguma, essa bosta.

Esses álbuns solitários
com essas fotos de espanto.

Essa viagem sem volta
meio mundo e mais um tanto
sem resposta, costa a costa
em linha reta, num corte
será pra sempre esquecida.

Saindo do mar da vida
entrando no mar da morte

26 janeiro 2007

Diga-me o que não falas (se isso for possível) e te direi quem és

As pessoas evitam pronunciar certas palavras, evitam escrever outras e evitam pensar em outras. São as palavras odiadas, palavras que causam irritação em quem as pronuncia, em quem as ouve. Palavras que causam desconforto em quem está escrevendo e o escritor que abusar delas vai encontrar o seu leitor do outro lado da linha que separa seus amigos dos inimigos.
Tudo é muito relativo, tudo é muito variável, mas existem algumas que são evitadas por quase todo mundo. Entre elas estão:
Alma - Honra - Responsabilidade - Sacrifício - Espírito - Mente - Moral e, inclusive, Deus (quando usada a sério, fora de expressões como "meu Deus!" ou "Deus me livre!") São alguns exemplos.
Essas palavras se tornaram malditas pelo peso doentio imposto a elas pelas religiões, durante alguns séculos. O cristianismo, mais específicamente. São palavras capazes de estragar irremediavelmente qualquer texto porque estão carregadas com uma (outra palavra chata:) aura de pura breguice, cansaço, desconfiança, dor e, por que não, medo.
O desconforto que essas palavras causam significa, entre outras coisas, que a alma (argh!) está machucada; significa uma cicatriz ainda dolorosa na área mental (ui,ui,ui) que trata desses assuntos.
Essas palavras foram praticamente deformadas e seu uso só é comum em desequilibrados.
Não sou masoquista, já tá ficando difícil continuar. Argh!
Por isso: diga-me o que não pronuncias e te direi que tua liberdade é ilusória, que temes ainda o monstro que se oculta no fundo de teus pesadelos e cujo nome verdadeiro não conheces bem, cujo apelido é medo e é tão velho quanto tua ingênua credulidade.
Caramba, carácoles, carái e putzgrila! Pqp! Desculpem, tenho que dar uma aliviada aqui, sô.