16 novembro 2006
Pequenos Pensamentos Pertubadores II
Bem, não existe a menor chance de você escolher pessoas para seu relacionamento. Você nasce e, evidentemente, não escolhe sua família. Você também não escolhe seus vizinhos. Dentro de um número reduzido de conhecidos você elege seus amigos, amigos de infância, colegas mais chegados. Você convive com eles e nunca vai saber se eles são os melhores amigos que você poderia ter simplesmente porque você não conhece todas as pessoas à sua volta.
É comum você morar durante 20 anos num lugar e nunca ter visto alguns dos seus vizinhos que, do mesmo jeito, moram ali a décadas. Você namora, fica noivo, se casa com alguém e vou dizer uma coisa: seu leque de opções é sempre ridículo se comparado com as centenas de pessoas que você poderia ter conhecido - porque circulam por onde você anda - mas que você nunca viu. Nem vai ver.
Vou chamar esse negócio de Índice de Visibilidade: iv (assim, com minúsculas, pra não ficar parecido demais com algarismos romanos). Se você nasceu com um iv alto, você se torna uma pessoa famosa. Não importa o que faça. Por outro lado, se seu iv é mínimo, você pertence à vasta legião dos semi-visíveis, dos embaçados ou até dos invisíveis.
Não importa que você trabalhe como um condenado para aumentar seu iv; ele já está mais ou menos programado por forças estranhas (forças que têm, de propósito, um iv baixíssimo). Assim é que existem moças belíssimas que passam a vida colhendo sementes nas estepes da Baixa Eslobóvia e nunca souberam que nada ficam a dever à Gisele Bundchen em "beleza e graça". Assim é que um sujeito subnutrido sai de uma aldeia subnutrida do interior da Bahia e vai, sem escalas, aparecer na TV, em São Paulo, e daí pro Brasil inteiro e um outro, compositor também notável, passa suas noites cantando num boteco fudido pra meia dúzia de pessoas completamente desinteressadas.
Penso também nas pessoas que tiveram a má sorte de estar dentro do círculo de influência de sujeitos como Stalin, Hitler, Mao, Che Guevara ou do curingão latino e ladino, Fidel. E outros, claro. Essas pessoas também não tiveram escolha, tendo que aguentar a pressão, tantas vezes letal, que a simples presença desses rábulas escrotos causava. As outras pessoas com iv alto, nesses casos, ou aderem ou perecem.
Parece assim: a vida é um jogo de cartas, pôquer, digamos e, para enfrentá-la, você recebe suas cartas, e só. Faça o melhor que puder com as cartas que você tem na mão. Ou não. Mas você não pode trocá-las.
13 novembro 2006
Pequenos Pensamentos Pertubadores I
Vamos falar de astronomia. Por que não? Imagine um quarto vazio, totalmente vazio, onde flutuam no ar dois grãos de poeira. Os grãos se movem, digamos, aleatóriamente. A probabilidade de um choque entre ambos, num período de um dia, por exemplo, é praticamente zero. Mas se você estender o fator tempo, a probabilidade tende a crescer. Num período infinito de tempo, a probabilidade é um, ou seja, haverá um choque. Perceberam onde quero chegar? Há pouco tempo houve uma pequena chuva de meteoros em Júpiter. Meteoros do tamanho de Fernando de Noronha. Daqui tiraram fotos e calcularam a força gerada pelo impacto, algo como dez milhões de bombas de Hiroshima. Como o prometido: um pequeno pensamento perturbador.
04 novembro 2006

Abaixo, nas ruas, fenômenos noturnos em seqüência aleatória.
A mulher das pernas russas indo de encontro ao chamado das esquinas. O motorista perdido que passa com seu carro, vidros fechados, inúmeras vezes pela mesma rua. O ônibus enguiçado há mais de 3 dias, ocupando com seu silencioso peso a entrada da garagem do edifício. O vendedor ambulante de sorvete que vende sua mercadoria em plena noite, todas as noites e no mesmo cruzamento, entre dez e meia noite, quando então vai embora e ninguém sabe ao certo para onde. 15 degraus, erguidos rente ao muro do colégio e que terminam sobre o muro, em pleno ar. O próprio colégio, desativado há tempos, num tempo não cronometrado. Um menino estranho, que amava doidamente seu cachorro e de quem eu nunca soube, nem quis saber, o nome. Mas ele, de uma forma ou de outra, acabou se insinuando em meu desenho, sem que eu esperasse, de forma que esse mesmo desenho tem essas outras memórias penduradas, desse tempo em que eu morava na rua São Paulo.
03 novembro 2006
Amar É...

Bem, isto é uma hq que refiz para a revista Graffiti. Publiquei essa história no meu antigo fotolog, em quadros isolados e comentários fora dos quadros. O enredo era outro. Eu tinha dado o nome de Append City e a idéia, além de ser uma paródia e gozação do Sin City, era estender a história até um pequeno apocalipse. Não tive fôlego ou tempo para manter o projeto e a história acabou mudando e indo para a revista Graffiti, o que foi muito melhor. Tive que juntar os quadros e compor páginas, de forma que isso virou mesmo uma hq. Eliminei as cores, para baratear a impressão (no papel) e achei que ficou melhor. Não gosto tanto de cores. Um detalhe legal é que a história foi toda desenhada no computador, muitos desenhos feitos no velho Paintbrush e apenas "amaciados" no Photoshop (5.5). Parece que em breve vai estar nas bancas, no próximo número da Graffiti. Isso aqui é uma prévia, pré-estréia, esse tipo de coisa.
21 setembro 2006
Lendo Harold Bloom

Harold Bloom, aparentemente, leu tudo o que há para ler. Durante mais de meio século Bloom leu incansavelmente. Seus autores favoritos são também, em grande parte, os mais famosos e devemos agradecer a Bloom o fato dele, no seu incansável ofício de leitor, resenhar para nós tais autores famosos e, entre esses, tantos extremamente cansativos.
A maldição do crítico literário é que ele, mais do que qualquer homem de letras, tem que estar vivo, mesmo que de forma figurada. O bom crítico literário lança para o futuro seus limites, conseguindo às vezes abranger uma era ou predizer uma nova. Mas não pode, ao contrário do escritor, sobreviver ao tempo.
Obviamente ele não poderá, depois de morto, fazer a crítica dos novos escritores que surgirão e das estranhas modalidades que a sensibilidade literária trará à tona. Com o tempo, forçosamente, toda crítica literária tende ao obscurantismo. O prisma gira lentamente e filtra outro espectro, o que vale dizer que toda percepção literária muda com o tempo.
Bloom escreve sobre o Dr. Johnson e pula por cima de outras críticas, contemporâneas, pessoas tão sagazes como Edmund Wilson ou George Steiner, que foram leitores poderosos e escritores idem. Eleger Samuel Johnson como crítico preferido implica em compartilhar o mesmo prisma do grande crítico mas, para nossa tristeza, há uma tristeza latente no que Bloom escreve. Talvez esse prisma tenha sido quebrado duramente pela passagem do tempo que produziu, por exemplo, duas grandes guerras e moldou, à força, uma nova e não necessariamente melhor, sensibilidade.
Bloom procura criaturas e valoriza, justamente, as criaturas mais perfeitas, ou seja, as mais consistentes. Ou seja, Bloom ama o teatro e, além do fato de confundir, sem aviso prévio, teatro com literatura, não se dá conta das limitações do primeiro ou não se dá ao trabalho de analisar isso.
Teatro é obra literária, sem dúvida, mas é, no máximo, gênero literário. Exige-se alguma explicação para colocar um autor teatral ao lado de um romancista. Bloom faz o mesmo que Manuel Puig, escritor menor, argentino, que apenas troca a ordem das coisas e confunde literatura com teatro. Por falar em Argentina, Bloom tem dificuldades em assimilar Borges, talvez por que Borges seja o antiteatro, entre outras coisas.
Bloom procura, quase religiosamente, os deuses criadores através de suas criaturas. Shakespeare, sob esse aspecto, é merecidamente o criador supremo. Nada se compara à extensa, variada e viva galeria de personagens criada pelo bardo. Quanto mais poderoso é o criador, mais vida empresta a seus personagens de forma que estes já não são seus arautos, o criador não fala através deles porque eles têm vida própria e são arautos de si mesmos.
Isto é, sem dúvida, um feito notável em literatura e Shakespeare, segundo Bloom, é o mestre absoluto. Temos que concordar. Sob esse prisma, Shakespeare é incomparável. Mas existem outros fatores e, alguns, alheios à capacidade individual do escritor. O problema da transposição entre idiomas é assunto longe de ser resolvido. Shakespeare não resiste bem ao português, principalmente no Brasil. O discurso às vezes hermético, às vezes parabólico de Shakespeare não encontra apoio no sub-português falado no Brasil, obrigando os tradutores a um exercício de retórica quase incompreensível. A culpa, evidentemente, não é de Shakespeare, mas a distância de sua alta retórica para a nossa simplificada fala é um abismo difícil de ser transposto. Bloom se engana ao afirmar que Shakespeare é absolutamente universal, no sentido de ser apreciado igualmente no mundo inteiro. Não é não. O povão mundial talvez aprecie apenas o fato de que suas peças são, em grande parte, rádio novelas baratas. Mas a outra dimensão, a dimensão verbal de seus personagens, que está acima do enredo dessas peças e que constitui a arte quase insuperável de Shakespeare, nos escapa. Não temos, pelo menos hoje, no Brasil, um idioma capaz de refletir o brilho verbal de Shakespeare.
Grande parte (para não dizer a totalidade) da literatura dos séculos precedentes ao século vinte é composta de solilóquios, circunlóquios, hipérboles, palavras chatas e excessivas, volteios e imprecisões – a insustentável lerdeza do ler e do escrever é o título do ensaio (que Milan Kundera não poderia produzir) sobre a chatice sem par da literatura européia até o séc. XX. Há exceções, claro. Contam-se nos dedos. Mas a grande maioria dos autores assombra, como o fantasma de Hamlet, aquela outra e verdadeira minoria silenciosa: nós, pobres leitores.
Quem já leu, ou pretende ler Em Busca do Tempo Perdido? A piada é cruel e de mau gosto, mas necessária: ao final das dez mil páginas constata-se o tempo perdido. Não há nada que Proust possa nos oferecer, hoje, e a inegável maestria da escrita, mesmo em traduções ruins, não é suficiente para sustentar o volume excessivo da deformidade sentimental da obra. Proust e seus personagens são de um outro mundo, distante, doentio e excessivamente melancólico. Um mundo enfermo. Não que o mundo, depois de Proust, seja mais saudável. Mas é mais dinâmico e não comporta mais as prostrações de Proust (o trocadilho é inevitável: proustrações).
Kafka ainda nos surpreende com a grande barata. Mas o que se inicia como um choque, a transformação de Gregor Samsa, se revela apenas um artifício para outra litania desesperadora sobre o Pobre Coitado, o único personagem kafkaniano. Kafka escreveu páginas sobre seu único tema, o Pobre Coitado. A força de Kafka vem do modo como ele escreve sobre esse tema e não do Pobre Coitado em si, que é uma das pragas mais insidiosas da literatura européia, ou ocidental, se quiserem. Há quem goste.
Werther, o jovem de Goethe, raia o retardamento mental. É difícil entender Werther, não a especulativa ingenuidade ou os previsíveis estados emocionais do personagem, já que entendemos imediatamente o que ele demora a se dar conta, mas a pieguice inerente como pilar central da obra. Sem aquela pieguice não há Werther e é difícil acreditar nisso.
Bloom é um tipo de leitor entre vários outros tipos. Quantos tipos existem? Não sei responder a essa pergunta, mas percebo que Bloom percebe e busca o conteúdo das obras que resenha. Na verdade, essa é a forma mais comum de leitura. Procura-se o que o autor está dizendo, o que ele tem a dizer, digamos, sua filosofia. Mas existe aí um problema, não solucionado. Existe outra coisa na literatura, fundamental, pela qual Bloom passa batido. Essa coisa define cada autor, cada livro, de forma que dois autores, usando o mesmo idioma, escrevendo a mesmíssima história produzirão obras tão diferentes entre si quanto dois flocos de neve da mesma nevada vistos ao microscópio.
A maldição do crítico literário é que ele, mais do que qualquer homem de letras, tem que estar vivo, mesmo que de forma figurada. O bom crítico literário lança para o futuro seus limites, conseguindo às vezes abranger uma era ou predizer uma nova. Mas não pode, ao contrário do escritor, sobreviver ao tempo.
Obviamente ele não poderá, depois de morto, fazer a crítica dos novos escritores que surgirão e das estranhas modalidades que a sensibilidade literária trará à tona. Com o tempo, forçosamente, toda crítica literária tende ao obscurantismo. O prisma gira lentamente e filtra outro espectro, o que vale dizer que toda percepção literária muda com o tempo.
Bloom escreve sobre o Dr. Johnson e pula por cima de outras críticas, contemporâneas, pessoas tão sagazes como Edmund Wilson ou George Steiner, que foram leitores poderosos e escritores idem. Eleger Samuel Johnson como crítico preferido implica em compartilhar o mesmo prisma do grande crítico mas, para nossa tristeza, há uma tristeza latente no que Bloom escreve. Talvez esse prisma tenha sido quebrado duramente pela passagem do tempo que produziu, por exemplo, duas grandes guerras e moldou, à força, uma nova e não necessariamente melhor, sensibilidade.
Bloom procura criaturas e valoriza, justamente, as criaturas mais perfeitas, ou seja, as mais consistentes. Ou seja, Bloom ama o teatro e, além do fato de confundir, sem aviso prévio, teatro com literatura, não se dá conta das limitações do primeiro ou não se dá ao trabalho de analisar isso.
Teatro é obra literária, sem dúvida, mas é, no máximo, gênero literário. Exige-se alguma explicação para colocar um autor teatral ao lado de um romancista. Bloom faz o mesmo que Manuel Puig, escritor menor, argentino, que apenas troca a ordem das coisas e confunde literatura com teatro. Por falar em Argentina, Bloom tem dificuldades em assimilar Borges, talvez por que Borges seja o antiteatro, entre outras coisas.
Bloom procura, quase religiosamente, os deuses criadores através de suas criaturas. Shakespeare, sob esse aspecto, é merecidamente o criador supremo. Nada se compara à extensa, variada e viva galeria de personagens criada pelo bardo. Quanto mais poderoso é o criador, mais vida empresta a seus personagens de forma que estes já não são seus arautos, o criador não fala através deles porque eles têm vida própria e são arautos de si mesmos.
Isto é, sem dúvida, um feito notável em literatura e Shakespeare, segundo Bloom, é o mestre absoluto. Temos que concordar. Sob esse prisma, Shakespeare é incomparável. Mas existem outros fatores e, alguns, alheios à capacidade individual do escritor. O problema da transposição entre idiomas é assunto longe de ser resolvido. Shakespeare não resiste bem ao português, principalmente no Brasil. O discurso às vezes hermético, às vezes parabólico de Shakespeare não encontra apoio no sub-português falado no Brasil, obrigando os tradutores a um exercício de retórica quase incompreensível. A culpa, evidentemente, não é de Shakespeare, mas a distância de sua alta retórica para a nossa simplificada fala é um abismo difícil de ser transposto. Bloom se engana ao afirmar que Shakespeare é absolutamente universal, no sentido de ser apreciado igualmente no mundo inteiro. Não é não. O povão mundial talvez aprecie apenas o fato de que suas peças são, em grande parte, rádio novelas baratas. Mas a outra dimensão, a dimensão verbal de seus personagens, que está acima do enredo dessas peças e que constitui a arte quase insuperável de Shakespeare, nos escapa. Não temos, pelo menos hoje, no Brasil, um idioma capaz de refletir o brilho verbal de Shakespeare.
Grande parte (para não dizer a totalidade) da literatura dos séculos precedentes ao século vinte é composta de solilóquios, circunlóquios, hipérboles, palavras chatas e excessivas, volteios e imprecisões – a insustentável lerdeza do ler e do escrever é o título do ensaio (que Milan Kundera não poderia produzir) sobre a chatice sem par da literatura européia até o séc. XX. Há exceções, claro. Contam-se nos dedos. Mas a grande maioria dos autores assombra, como o fantasma de Hamlet, aquela outra e verdadeira minoria silenciosa: nós, pobres leitores.
Quem já leu, ou pretende ler Em Busca do Tempo Perdido? A piada é cruel e de mau gosto, mas necessária: ao final das dez mil páginas constata-se o tempo perdido. Não há nada que Proust possa nos oferecer, hoje, e a inegável maestria da escrita, mesmo em traduções ruins, não é suficiente para sustentar o volume excessivo da deformidade sentimental da obra. Proust e seus personagens são de um outro mundo, distante, doentio e excessivamente melancólico. Um mundo enfermo. Não que o mundo, depois de Proust, seja mais saudável. Mas é mais dinâmico e não comporta mais as prostrações de Proust (o trocadilho é inevitável: proustrações).
Kafka ainda nos surpreende com a grande barata. Mas o que se inicia como um choque, a transformação de Gregor Samsa, se revela apenas um artifício para outra litania desesperadora sobre o Pobre Coitado, o único personagem kafkaniano. Kafka escreveu páginas sobre seu único tema, o Pobre Coitado. A força de Kafka vem do modo como ele escreve sobre esse tema e não do Pobre Coitado em si, que é uma das pragas mais insidiosas da literatura européia, ou ocidental, se quiserem. Há quem goste.
Werther, o jovem de Goethe, raia o retardamento mental. É difícil entender Werther, não a especulativa ingenuidade ou os previsíveis estados emocionais do personagem, já que entendemos imediatamente o que ele demora a se dar conta, mas a pieguice inerente como pilar central da obra. Sem aquela pieguice não há Werther e é difícil acreditar nisso.
Bloom é um tipo de leitor entre vários outros tipos. Quantos tipos existem? Não sei responder a essa pergunta, mas percebo que Bloom percebe e busca o conteúdo das obras que resenha. Na verdade, essa é a forma mais comum de leitura. Procura-se o que o autor está dizendo, o que ele tem a dizer, digamos, sua filosofia. Mas existe aí um problema, não solucionado. Existe outra coisa na literatura, fundamental, pela qual Bloom passa batido. Essa coisa define cada autor, cada livro, de forma que dois autores, usando o mesmo idioma, escrevendo a mesmíssima história produzirão obras tão diferentes entre si quanto dois flocos de neve da mesma nevada vistos ao microscópio.
Cada autor tem seu estilo, e estilo é quase tudo em literatura. Implica escolha das palavras, construção das frases, encadeamento das frases, encadeamento de idéias, ritmo, cadência, dosagem de ironia, humor, mau-humor, ou o que mais exista num texto. É necessário não confundir a eminência literária de um autor, isto é, seu estilo ou a forma com que ele escreve, com o que ele está dizendo. E, afinal, o que os autores estão dizendo? Nada de mais, na maior parte das vezes.
Ulisses, de James Joyce, que deixou os críticos de língua inglesa embasbacados, é exercício de estilo. Traduzido para o português (conheço apenas a versão de Antonio Houaiss) vira prosa de adolescente. Claro, um adolescente que tem futuro na carreira literária, ou seja, talentoso, mas ainda assim, adolescente. Ou isso ou Joyce também não sobrevive ao português.
Li mais sobre Ulisses do que me lembro do livro em si. Li sobre a estrutura rigorosa, ou o rigor estrutural (sic) da obra, li sobre a recriação da Odisséia, sobre complexidades e/ou profundezas psicológicas, fluxo dissertativo do inconsciente, etc. Bobagem. Joyce, com o perdão da palavra, era jovem demais, a despeito da idade cronológica. Há uma ingenuidade, comovente, em Joyce. Assim como em Charles Dickens, que a crítica anglo-saxônica insiste que seja ouvido (lido). Mas quem pode ler e levar a sério uma novela mexicana?
Bloom trata, por exemplo, Faulkner, Garcia Marques e mesmo Borges com reserva. Mais ainda esses dois últimos. Os três têm em comum o fato de que não são grandes criadores de personagens. Na verdade eles não se importam muito com isso. O personagem principal de Faulkner é uma espécie de divindade, talvez do tempo, um anjo do destino, que, evidentemente, não está na história mas paira sobre cada linha escrita e força o leitor a enxergar sob seu prisma. Os personagens de Garcia Marques são, praticamente, uma só pessoa. Falam da mesma forma e agem igualmente. Homens e mulheres, somos todos iguais e, de certa forma, isso ajuda no contraste com a fantástica realidade em que vivem, essa sim, sua grande, rica e imprevisível personagem. O personagem de Borges é a própria idéia central do conto, quase sempre surpreendente e complexa. Bloom, admirador radical de Shakespeare, espera sempre encontrar algum Hamlet perdido por aí. Dá a impressão de que não vai desistir dessa busca, ainda que a literatura, como no caso, possa apresentar novos parâmetros.
Ulisses, de James Joyce, que deixou os críticos de língua inglesa embasbacados, é exercício de estilo. Traduzido para o português (conheço apenas a versão de Antonio Houaiss) vira prosa de adolescente. Claro, um adolescente que tem futuro na carreira literária, ou seja, talentoso, mas ainda assim, adolescente. Ou isso ou Joyce também não sobrevive ao português.
Li mais sobre Ulisses do que me lembro do livro em si. Li sobre a estrutura rigorosa, ou o rigor estrutural (sic) da obra, li sobre a recriação da Odisséia, sobre complexidades e/ou profundezas psicológicas, fluxo dissertativo do inconsciente, etc. Bobagem. Joyce, com o perdão da palavra, era jovem demais, a despeito da idade cronológica. Há uma ingenuidade, comovente, em Joyce. Assim como em Charles Dickens, que a crítica anglo-saxônica insiste que seja ouvido (lido). Mas quem pode ler e levar a sério uma novela mexicana?
Bloom trata, por exemplo, Faulkner, Garcia Marques e mesmo Borges com reserva. Mais ainda esses dois últimos. Os três têm em comum o fato de que não são grandes criadores de personagens. Na verdade eles não se importam muito com isso. O personagem principal de Faulkner é uma espécie de divindade, talvez do tempo, um anjo do destino, que, evidentemente, não está na história mas paira sobre cada linha escrita e força o leitor a enxergar sob seu prisma. Os personagens de Garcia Marques são, praticamente, uma só pessoa. Falam da mesma forma e agem igualmente. Homens e mulheres, somos todos iguais e, de certa forma, isso ajuda no contraste com a fantástica realidade em que vivem, essa sim, sua grande, rica e imprevisível personagem. O personagem de Borges é a própria idéia central do conto, quase sempre surpreendente e complexa. Bloom, admirador radical de Shakespeare, espera sempre encontrar algum Hamlet perdido por aí. Dá a impressão de que não vai desistir dessa busca, ainda que a literatura, como no caso, possa apresentar novos parâmetros.
17 setembro 2006
Toy Guitar Blues

Essa é a guitarra de brinquedo que eu usei no Toy Guitar Blues, um blues (também de brinquedo) que está lá no meu canal, Boo Band, na página do Podcast1. Tem algumas outras músicas lá. Resolvi registrar a imagem dessa guitarrinha antes que alguma coisa aconteça com ela (já está quase quebrando) e acabe indo pro lixo.
28 agosto 2006
deuses na rua
deuses que nas ruas são pardos
devem ser conhecidos por nomes mais antigos
lembro-me, recordo-me
milhas mnemônicas ao entardecer
poente, riso doente, quanta porcaria
lixo da cidade, grandes caminhões
que de noite rondam a meia noite
entopem o meio dia
assoviam surdos seus gases mecânicos
as rodas são maiores
que as crianças nas calçadas
percebo a cidade agora
pereço, pareço um doido, cidadão
e a cidade grande é tamanha
e as ruas curvas, os montes de banha
das montanhas no horizonte
e as populações de mendigos
vêm todos os dias até a janela
oferecer um espetáculo único
para o sujeito oculto que não fala
e sorri diante de tanta saudade acumulada.
devem ser conhecidos por nomes mais antigos
lembro-me, recordo-me
milhas mnemônicas ao entardecer
poente, riso doente, quanta porcaria
lixo da cidade, grandes caminhões
que de noite rondam a meia noite
entopem o meio dia
assoviam surdos seus gases mecânicos
as rodas são maiores
que as crianças nas calçadas
percebo a cidade agora
pereço, pareço um doido, cidadão
e a cidade grande é tamanha
e as ruas curvas, os montes de banha
das montanhas no horizonte
e as populações de mendigos
vêm todos os dias até a janela
oferecer um espetáculo único
para o sujeito oculto que não fala
e sorri diante de tanta saudade acumulada.
25 agosto 2006
Todos Incomodados
Fumar incomoda muitas pessoas. Mas o que mais incomoda todas as pessoas são as outras pessoas.
Elas gritam, descontroladas, nos restaurantes. Conversam aos berros. Maltratam os garçons na sua frente. Ouvem suas músicas em alto e bom tom dentro dos seus carros iguais. Ficam horas nos caixas eletrônicos dos bancos onde cada gerente cria uma fila de espera de indivíduos confusos que espera, com paciência, que o tal gerente acabe seu telefonema.
Esses gerentes vivem pendurados no telefone, atendendo minuciosamente um cliente que, ao contrário de você, nem se deu ao trabalho de ir até lá. O gerente de banco, enquanto telefona, nunca te olha. Eles devem ser treinados assim.
O guarda de banco pede que alguém volte atrás da linha amarela mas, antes de terminar a frase, a pessoa já foi, sem passar da linha amarela e já está voltando, lutando contra a porta giratória que não vai girar a menos que ela fique, por um momento, parada atras da linha amarela.
Essas pessoas nunca esvasiam as bolsas, os bolsos, do metal que carregam. Não da primeira vez. Botam um chaveiro na caçamba da porta. A porta não abre. Botam um celular. A porta não abre. Botam uma mini-câmera digital. A porta não abre. Botam um estojo de maquilagem, um anel, moedas. Do lado de dentro alguém quer sair. Toda vez que o cara tenta entrar, o outro tenta sair.
As filas nunca estão formadas de acordo com as linhas desenhadas para orientação. As pessoas mais pobres entendem a fila como algo que deve se estender a partir das costas de alguém. Não importa pra que lado essa pessoa esteja virada.
O balcão de informações não tem ninguém trabalhando lá. Quando a fila nos (três) caixas começa a engrossar, dois imediatamente se levantam e somem pela portinha dos fundos, levando um monte de papéis, cada um. Fica só aquele, de óculos, meio abobado. Aí chega um senhor bastante idoso e pouquíssimo amigável. Quer saber quanto tem na sua conta, mas esqueceu qual conta é.
Na hora do pique máximo o pessoal da manutenção resolve trabalhar e inutiliza, por prazo indeterminado, três caixas eletrônicos, dos cinco que existem. Mas um deles é só para emitir cheques.
Saio do banco e acendo um cigarro ali mesmo, na calçada. Um tomador-de-conta de carro vem pro meu lado e pede fogo. Fumamos os dois, em silêncio, em mútuo entendimento, observando as pessoas que saem pela porta giratória. Olham pra gente e desviam, rápidas, o olhar. Elas não fumam.
Elas gritam, descontroladas, nos restaurantes. Conversam aos berros. Maltratam os garçons na sua frente. Ouvem suas músicas em alto e bom tom dentro dos seus carros iguais. Ficam horas nos caixas eletrônicos dos bancos onde cada gerente cria uma fila de espera de indivíduos confusos que espera, com paciência, que o tal gerente acabe seu telefonema.
Esses gerentes vivem pendurados no telefone, atendendo minuciosamente um cliente que, ao contrário de você, nem se deu ao trabalho de ir até lá. O gerente de banco, enquanto telefona, nunca te olha. Eles devem ser treinados assim.
O guarda de banco pede que alguém volte atrás da linha amarela mas, antes de terminar a frase, a pessoa já foi, sem passar da linha amarela e já está voltando, lutando contra a porta giratória que não vai girar a menos que ela fique, por um momento, parada atras da linha amarela.
Essas pessoas nunca esvasiam as bolsas, os bolsos, do metal que carregam. Não da primeira vez. Botam um chaveiro na caçamba da porta. A porta não abre. Botam um celular. A porta não abre. Botam uma mini-câmera digital. A porta não abre. Botam um estojo de maquilagem, um anel, moedas. Do lado de dentro alguém quer sair. Toda vez que o cara tenta entrar, o outro tenta sair.
As filas nunca estão formadas de acordo com as linhas desenhadas para orientação. As pessoas mais pobres entendem a fila como algo que deve se estender a partir das costas de alguém. Não importa pra que lado essa pessoa esteja virada.
O balcão de informações não tem ninguém trabalhando lá. Quando a fila nos (três) caixas começa a engrossar, dois imediatamente se levantam e somem pela portinha dos fundos, levando um monte de papéis, cada um. Fica só aquele, de óculos, meio abobado. Aí chega um senhor bastante idoso e pouquíssimo amigável. Quer saber quanto tem na sua conta, mas esqueceu qual conta é.
Na hora do pique máximo o pessoal da manutenção resolve trabalhar e inutiliza, por prazo indeterminado, três caixas eletrônicos, dos cinco que existem. Mas um deles é só para emitir cheques.
Saio do banco e acendo um cigarro ali mesmo, na calçada. Um tomador-de-conta de carro vem pro meu lado e pede fogo. Fumamos os dois, em silêncio, em mútuo entendimento, observando as pessoas que saem pela porta giratória. Olham pra gente e desviam, rápidas, o olhar. Elas não fumam.
16 agosto 2006
Uma oração

Somente meu estado de espírito não será suficiente para a descida no escuro, a viagem no escuro - uma estrada, horizontal como a dúvida, estendida por quilômetros no frio - partiremos à noite, sobre a terra e chegaremos amanhã no mundo; eu e meus comparsas, todos os canalhas, os cafajestes e as dívidas serão pagas e os mortos recolherão em nossas memórias as frases que os mantêm ativos:
"...Ruby era doente, cara" ;
"..Ramón tinha uma merda de direita";
"...aquela polaca do bar não levantou os olhos quando a gente parou lá, mano, que ela tava com medo de ver o Walter de novo";
"...eu falei com o Spencer pra deixar a maluca em paz, mas ela tava procurando ele e trouxe aquele merda do xerife";
"...se o Espiga tivesse por aqui cê num ia tá rindo, não com esses dentes todos"
As rotas estão traçadas e trago a revelação, eu que não sabia coisa alguma sobre a distância entre dois horizontes - as folhas da relva apontam, num movimento vago, a direção do vento e nós vagamos atras de alguma direção possível, era ontem - sei agora que uma única vez você disse meu nome, me chamou, no escuro, por meu verdadeiro nome e isso foi mais do que suficiente para que eu me movesse, para sempre, através desse espaço em que cada pedra, grão, folha, poeira reverbera seu nome submerso, Senhor dos caminhos, Senhor do tempo sobre os caminhos, Senhor das coisas distantes que se aproximam.
27 julho 2006
Para Allen Ginsberg (1926-1997)
As vozes americanas estão caladas
“Quais vozes?” - dirão, dentro dos desertos
os filhos da antiga natureza.
“Quais vozes?” - dirão, dentro dos metrôs
os eleitos
correndo nos trens elétricos.
Ginsberg (um outro Withman,
cientes um do outro
em todas as prateleiras públicas)
O peixe celacanto
desaparecido no fulgor da aurora
redivivo no apartamento
e nas paredes dos quartos impossíveis
e incendiando a imaginação da estrela
e configurando na terra a estirpe
dos que não tem amigos
apenas o resíduo dessa ilusão.
Assim pesado, dentro do espaço da moldura.
Ali parado, no cotovelo que sustenta o punho
que sustenta a mão e a cara triste.
Ali completo, por um segundo.
Ali e só ali, alívio.
Ali e só ali, babá
da criança que, segundo Yeats,
se arrastou para nascer
como a Besta, em Belém.
Mudo, no silêncio, e loquaz
pela possibilidade nociva do homem
que, por exemplo,
despenca das alturas do edifício
e passa por vidraças em formação geométrica
onde pessoas tristes, dentro dos quartos
o observam na queda
por milésimos de segundo.
Fantasmas calados aparecem
na extremidade da rua
como premonições de que um dia
todos nós nos encontraremos.
Foi-se o alto poeta beat,
besta demasiado rouca
anta, demasiado vil
para o país Brasil,
abaixo do hemisfério isolado
da sua influência.
Seu medo era o medo geral
do poeta, do judeu, da gentalha
e o dilema: Dylan Thomas:
a escrita que foi falha.
“Quais vozes?” - dirão, dentro dos desertos
os filhos da antiga natureza.
“Quais vozes?” - dirão, dentro dos metrôs
os eleitos
correndo nos trens elétricos.
Ginsberg (um outro Withman,
cientes um do outro
em todas as prateleiras públicas)
O peixe celacanto
desaparecido no fulgor da aurora
redivivo no apartamento
e nas paredes dos quartos impossíveis
e incendiando a imaginação da estrela
e configurando na terra a estirpe
dos que não tem amigos
apenas o resíduo dessa ilusão.
Assim pesado, dentro do espaço da moldura.
Ali parado, no cotovelo que sustenta o punho
que sustenta a mão e a cara triste.
Ali completo, por um segundo.
Ali e só ali, alívio.
Ali e só ali, babá
da criança que, segundo Yeats,
se arrastou para nascer
como a Besta, em Belém.
Mudo, no silêncio, e loquaz
pela possibilidade nociva do homem
que, por exemplo,
despenca das alturas do edifício
e passa por vidraças em formação geométrica
onde pessoas tristes, dentro dos quartos
o observam na queda
por milésimos de segundo.
Fantasmas calados aparecem
na extremidade da rua
como premonições de que um dia
todos nós nos encontraremos.
Foi-se o alto poeta beat,
besta demasiado rouca
anta, demasiado vil
para o país Brasil,
abaixo do hemisfério isolado
da sua influência.
Seu medo era o medo geral
do poeta, do judeu, da gentalha
e o dilema: Dylan Thomas:
a escrita que foi falha.
20 julho 2006
Empregadas mortas
Rapaz, rapaz.. dia virá, quando as empregadas mortas se encontrarem atras da porta, sussurrando sobre os ladrilhos da cozinha: que não eram ninguém e que ninguém as ouve. O menino, que uma das babás recorda agora, com os olhos fixos no interior da casa, esse homem quase grisalho que já foi sua criança, seu pequeno, indefeso peralta, passa por ela sem atinar que o movimento súbito do vento na porta da cozinha se deve ao deslizar continuo do espectro que anda junto às paredes e se reflete, com um cintilar estranho e mínimo na superfície espelhada dos azulejos.
08 julho 2006
Alguma Memória I
Acredito em deuses arcaicos, roupas de baixo e no uniforme escolar. As moças que andavam com eles, cinza, verde e branco; a bandeira desfraldada de uma juventude ímpar; aqueles anos onde a gente era jovem também e havia sonho - sonho nos olhos, sonhos nas mãos – e elas, as moças, apertavam os cadernos e livros contra o peito juvenil; a gente era isso, juvenil, e nada podia derrubar nossa torre, erguida sobre a ruína das ruas.
No pátio descampado daquele colégio eu virava a mesa, andava sem direção, matando aula e ia até a cantina. Perseguia, mesmo em pensamento, a imagem de Norminha e, se ela estivesse na cantina - e com certeza estaria - eu, por outro lado, estaria do outro lado das vidraças, o sol da tarde pelas costas e minha sombra no vidro, emoldurando a imagem da menina magrela que usava um blusão Lee sobre o uniforme.
Eu fumava de vez em quando, passeando na alameda do colégio, vindo da escuridão do pátio interno que ficava sob o imenso bloco de cimento que comportava as salas de aula. Eu escrevia alguma coisa nos meus cadernos, não importando a matéria escolar que havia neles. No de matemática havia poesia, idem no de geografia, e mais outros que não me lembro - estão todos soterrados no tempo.
Helena passava, subindo a rampa. Não me via e olhava sempre para frente, ligeiramente para o alto, subindo a rampa que ia dar nas salas de aula onde ela lecionava. Lições que eram obra do acaso; uma história que não era a nossa; uma mulher que entrava na sala de aula como a sacerdotisa que entra num templo antigo. Uma sacerdotisa antiga do Egito, cogito, uma deusa antropomórfica que desceu, pisou no meio do colégio estadual numa hora em que ninguém viu - a gente estava em casa, dormindo. Eu a seguia com os olhos assim como seguia cada passo com os ouvidos e guardava minhas mãos no bolso para que elas (mãos) não me traíssem, fazendo seus sinais de muda timidez. Viaja, nessas tardes, na memória, meu coração de antanho.
No pátio descampado daquele colégio eu virava a mesa, andava sem direção, matando aula e ia até a cantina. Perseguia, mesmo em pensamento, a imagem de Norminha e, se ela estivesse na cantina - e com certeza estaria - eu, por outro lado, estaria do outro lado das vidraças, o sol da tarde pelas costas e minha sombra no vidro, emoldurando a imagem da menina magrela que usava um blusão Lee sobre o uniforme.
Eu fumava de vez em quando, passeando na alameda do colégio, vindo da escuridão do pátio interno que ficava sob o imenso bloco de cimento que comportava as salas de aula. Eu escrevia alguma coisa nos meus cadernos, não importando a matéria escolar que havia neles. No de matemática havia poesia, idem no de geografia, e mais outros que não me lembro - estão todos soterrados no tempo.
Helena passava, subindo a rampa. Não me via e olhava sempre para frente, ligeiramente para o alto, subindo a rampa que ia dar nas salas de aula onde ela lecionava. Lições que eram obra do acaso; uma história que não era a nossa; uma mulher que entrava na sala de aula como a sacerdotisa que entra num templo antigo. Uma sacerdotisa antiga do Egito, cogito, uma deusa antropomórfica que desceu, pisou no meio do colégio estadual numa hora em que ninguém viu - a gente estava em casa, dormindo. Eu a seguia com os olhos assim como seguia cada passo com os ouvidos e guardava minhas mãos no bolso para que elas (mãos) não me traíssem, fazendo seus sinais de muda timidez. Viaja, nessas tardes, na memória, meu coração de antanho.
19 junho 2006
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