25 agosto 2007

Os Amigos Admiráveis - parte 4

Tentei descobrir qual o princípio ativo, ou qual a pessoa, que norteava a cerimônia de entrega dos prêmios, já que havia uma pequena multidão mas nenhum indício de ordem ou coisa que o valha. O velho auditório do campus estava com a lotação pela metade, mas a algazarra reinante parecia aumentar o número de gente.
Lá na frente, sobre o tablado, algumas cadeiras vazias, perfiladas atrás de uma mesa, também vazia, a não ser pelo único microfone, colocado no centro. Alguns caras estavam rodeando o microfone e conversavam entre si.
Eu supunha que eram os encarregados de fazer a aparelhagem de som funcionar, mas pareciam absortos numa conversa entre eles e que não tinha nada a ver com o microfone. Um dos caras, finalmente, deu uns tapas na boca do microfone e disse: "som, som".
Um assovio agudíssimo, com a potência de mil decibéis, algo que soou como um eco de uma briga de gatos gigantes, encheu o salão, ensurdecendo quem estivesse próximo dos autofalantes e um grasnido alto, de alguma besta mecânica inominável, rompeu em soluços espasmódicos, enquanto alguns caras se movimentaram rápidamente em cima do tablado, e a coisa pareceu funcionar, e fez-se silêncio súbito.
Novamente o cara bateu no microfone - "Som, um, dois, três, som" - e alguém fez sinal pra ele de que não havia som algum. O cara vai até o fundo e sai tateando pelos cantos da parede, mexendo nuns fios. Um outro cara fica com a boca próxima ao microfone, gritando alguma coisa inaudível, até que a aparelhagem subitamente volta a funcionar, ampliando absurdamente a voz do sujeito: "...ta que o pariu! Funciona, carái!!!" Risos na platéia, assovios; alguém puxa uma saraivada de palmas. A cerimônia de entrega dos prêmios literários estava começando.
A mulher alta e magra, idade indefinida entre quarenta e cinquenta, conhecida como "a polaca", uma das professoras mais conhecidas da universidade, se aproxima do microfone sobre a mesa e tem que se curvar para dizer: "Bom dia!" Estávamos em pleno sábado, manhã de sábado, por volta das dez horas da manhã.
O campus estava vazio quando cheguei, apenas a pequena aglomeração na entrada do auditório marcava o evento, programado para as nove horas. De uma manhã de sábado. Sabe-se lá por quê. Parafraseando Erasmo Carlos, logo que eu cheguei, notei Joaquim com um copo na mão. Assim que ele me viu, veio pro meu lado:
"Cara, olha só isso aqui."
Eu olhei pro copo em sua mão - era a única pessoa que tinha um copo na mão - mas ele me corrigiu logo:
"Não é o que eu tô bebendo, sô. Tô falando é dessa confusão toda", e abriu os braços, num gesto que apontava as pessoas em redor.
Me afastei um pouco, instintivamente, mas ele conseguiu não derramar nada do que tinha dentro do copo.
"O que você tá bebendo aí, por falar nisso?"
"É só água, sô. Tô com a boca seca. Quer dar um gole?"
Ficou me olhando insistentemente, estendendo o copo em minha direção, esperando minha resposta. "Não. Tudo bem, - eu disse - cê pode andar por aí em paz, com seu copo de água."
Foi o melhor que eu consegui responder. Joaquim deu alguns pequenos goles, absorto em si mesmo e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, perguntou de repente: "Cadê a Cida?"
Respondi o que eu achava óbvio:
"Pensei que ela já estivesse aqui, com você."
"Ué... por quê?", perguntou ele. Realmente eu não sabia por quê. Ia dizer que eles sempre estavam juntos, ou coisa assim, quando vi, de longe, que Cida estava chegando, caminhando pela alameda que ia dar no auditório.
"Lá vem ela", eu disse.
Joaquim olhou para onde eu olhava, ficou na ponta dos pés e custou um pouco para identificar Cida no meio das pessoas que ainda estavam chegando. Tive que rir porque não havia razão nenhuma para ficar nas pontas dos pés, não havia ninguém na nossa frente e Joaquim já era alto o bastante para enxergar acima de quase todo mundo. Mas ele continuou na postura de quem olha por cima de alguma multidão, até que Cida nos viu e se aproximou, sem alterar o passo.
"Ahá! Maria, a parricida! Até que enfim, aparecendo!"
Desde quando Joaquim soube que Cida brigara com os pais para ingressar no curso de comunicação, em vez de estudar medicina, como eles queriam, Joaquim deduziu que ela "matou os velhos de desgosto profundo". Portanto, Maria Aparecida Velásques, nome que ela própria detestava, como confessara algumas vezes, era um nome perfeito para os trocadilhos de Joaquim. Ele se queixava, por exemplo, de sua acidez - "A relação com a Cida é ácida". Ou dizia que as caminhadas com ela eram "acidantadas" e costumava praticar mais outras piadinhas infames. Cida nunca se incomodou. De vez em quando dava uns tapas no ombro dele, pra ele ficar quieto. Riam juntos, ele mais, aparentemente adorando a reação dela.
Cida parou na nossa frente, disse "Oi" para ambos, olhando para baixo, ajeitando alguma coisa com os pés, como se as sandálias estivessem apertadas ou algo assim. Deu um passo em minha direção, como se estivesse testando as sandálias e levantou subitamente a cabeça para me beijar o rosto, de leve e rapidamente, sem me dar tempo para retribuir; foi até Joaquim e empurrou-o com ambas as mãos, em direção à entrada do auditório, "Vamos, bobão."
Fomos e nos sentamos, os três, a uma distância relativamente longe do tablado, atrás das oito ou dez primeiras filas de cadeiras, já ocupadas. Estiquei as pernas, até onde consegui, me recostei o melhor que pude e me preparei para enfrentar os discursos, os agradecimentos e o que mais viesse. Eu tinha ido apenas por insistência de Joaquim; não acreditava em nenhum resultado positivo em relação ao "nosso conto"; nem ao menos que ele estivesse entre os finalistas. Cida, ao meu lado, olhava fixamente para frente; depois dela, Joaquim batia incessantemente os joelhos. Pensei que a manhã ia ser uma longa manhã.

07 julho 2007

Os Amigos Admiráveis - parte 3

O ônibus balançou, rodou sobre bueiros mal fechados e produziu um som metálico, alto. Cida olhou pela janela e viu passar, num adeus sorridente, o rosto da moça que anunciava um novo perfume, num cartaz gigantesco, fincado sobre a esquina da rua, acima do lote vago que há muito tempo estava assim - "tão vago como meu coração" – pensou ela, lembrando a frase boba de Joaquim e que ela, Cida, não conseguia esquecer.

Ali se levantou para puxar a cordinha e dar o sinal para saltar no próximo ponto, quase na esquina da rua que levava diretamente à sua casa, um quarteirão adiante. Esperou alguns segundos para que o passageiro ao lado se desse conta de que ela queria descer e afastasse os joelhos, dando passagem.

"Não obstante os pequenos obstáculos," - Cida recitou de cabeça, em silêncio - "obteremos, com nossa obscena obstinação, o obscuro objeto de desejo".

Joaquim escrevera essa frase num dos cadernos que ela deixara sobre a carteira, na primeira vez em que se encontraram, há alguns anos.

Viu o rapaz magro e levemente desengonçado, no meio dos outros estudantes que entravam na sala de aula. Ele estava batendo com uma caneta na palma das mãos, tentando fazer, no tapa, com que a caneta funcionasse. Daí ele notou o caderno dela, solto em cima do tampo da mesinha e, ainda sacudindo freneticamente a caneta, abriu o caderno, despreocupadamente, e começou a escrever alguma coisa.

Ela se lembrava de como havia se aproximado por trás dele e dito: "Ei! Esse caderno é meu." Ele a olhou sobre os ombros, virou-se, meio atrapalhado mas sorrindo e lhe disse que estava tendo dificuldades com aquela caneta mas que, por algum motivo, naquele caderno ela tinha funcionado.

"Olha aqui" - disse ele, mostrando a ela a página rabiscada - "ainda tá falhando um pouco, mas já dá pra ler. Esse caderno é seu, é?"

Cida tirou-lhe o caderno das mãos e disse calmamente: "Cê não vai escrever mais nada nesse caderno, cara."

Ela sorria quando se lembrava desses detalhes, sorria ao perceber como havia radiografado imediatamente o sujeito que, mais tarde, se apresentara como Joaquim. Percebera a admiração, nunca confessada, estampada nos olhos dele, na medida em que ela não se alterava com suas pequenas impertinências, achava divertida a lealdade inconsciente que ele lhe dedicara desde então, a forma como ele prestava atenção a tudo o que ela dizia. Gostava do poder que ele lhe outorgava sem saber, da possibilidade potencial, mas nunca utilizada, de manipular Joaquim como quisesse.

Guardou, por absoluta falta de outra idéia melhor, a frase escrita no caderno. Leu aquilo diversas vezes, desde então, e achava engraçado como a frase a ajudava em momentos nos quais não sabia bem como reagir, ou não sabia o que pensar.

Cida desceu do ônibus e caminhou com seus passos ritmados, como sempre, passando sob as copas das árvores que margeavam sua rua, até chegar em casa. Atravessou a sala, onde sua tia via uma reprise de novela na tv e apenas abanou a mão, em concentração total. Checou, na cozinha, o quadro de cortiça onde se penduravam as contas a pagar, abriu a geladeira e verificou as possibilidades para o jantar dali a pouco, parou na porta do banheiro e viu se as toalhas estavam em ordem para o banho e então foi para seu quarto. Fechou a porta e sentou-se na cama, mas se levantou quase que imediatamente, a imobilidade seria perigosa agora, e foi até o guarda-roupas.

Do lado interno da porta, que ela abriu, o grande espelho refletia seus gestos e ela se observou, enquanto escolhia roupas e começava a se despir. Viu seu próprio corpo magro, estranhamente nítido em sua palidez, refletido no espelho, destacando-se na penumbra que já invadia o quarto no fim do dia.

"A despeito de não ter peitos e apesar do peso mínimo..." – outra frase de Joaquim, quase uma descrição literal de si mesma, que ela deixava rodar em sua memória. Um artifício calculado para não pensar na outra coisa, mas sentia que estava prestes a ceder, que estava prestes a ir de encontro à questão central, a coisa que a atormentava em silêncio, dentro de seu coração. Ele estivera tão próximo, outra vez. Podia ver de novo suas mãos quietas, os gestos lentos de seus dedos tamborilando sobre os joelhos. Podia ver seu rosto de perfil, contra a luz da janela. Cida se perguntou, pela enésima vez, qual deus desgraçado a ferira de morte, em qual dia. Em qual momento descera sobre ela oferecendo seu inesperado cálice de veneno. E ela bebeu, muito mais do que gostaria. Porque o veneno direcionou seus olhos para aquele a quem ela não ousava olhar mais que o necessário, porque não confiava em seus próprios olhos, com medo de que revelassem a ele sua frágil súplica, a intensidade contida dentro de si, que poderia facilmente vazar através da traição desses seus olhos.

Hoje, beijara sua testa, ao sair, como já fizera outras vezes. Um beijo leve, tão difícil quanto representar uma farsa sem enredo ou fim, e tão necessário para manter essa mesma farsa. Essa farsa que, ao menos, mantinha a ela, Cida, circulando ao lado dele, no campus da universidade, nas calçadas do centro da cidade, nos cinemas, nos pequenos bares que freqüentavam ocasionalmente, no apartamento de Joaquim e em outros lugares – não fazia diferença, contanto que ele estivesse perto. "Até quando?", era a pergunta que ela não ousava responder.

Cida retirou do guarda-roupas uma grande camiseta e, assim vestida, se dirigiu para o banheiro. Nua, sob o barulhento chuveiro elétrico, observando as nuvens de vapor que umedeciam os ladrilhos, Cida murmurou, em surdina, enquanto traçava lentamente, com o dedo, um pequeno coração, no vapor condensado sobre as paredes de mosaicos coloridos:

"Não obstante os pequenos obstáculos... obteremos com nossa obscena obstinação... o obscuro objeto de desejo..."

Agora a frase adquirira seu sentido oculto, seu peso real, sua verdadeira face sem máscaras. Cida apagou, com as bordas da mão, o desenho do minúsculo coração e regulou a torneira para que a água caísse com maior volume e, tombando a cabeça para trás, as duas mãos imóveis, levemente apoiadas sobre os seios, deixou que a água batesse em seus lábios, queixo, pescoço, clavículas, ficando quieta assim por alguns momentos, esperando, talvez, que a água atingisse algum ponto dentro de si mesma, que aliviasse, que lavasse a dor, escondida lá dentro, no mapa mal traçado que ela chamava de "minha zona sentimental".

07 maio 2007

Os Amigos Admiráveis - parte 2

Joaquim abre a porta e entra assoviando alto, as duas mãos, os dois dedos mínimos, na boca. Dá dois passos dentro da minha cozinha, fica parado e grita:
"Ô! Ô! Cheguei! Já cheguei!"; assovia de novo mais umas duas vezes, bate palmas, "Ô! Ó eu aqui! Cheguei!".
O fato de eu estar visível, a poucos metros de distância, sentado na mesa da cozinha, olhando para ele, não interfere na sua performance. No meio das palmas ele percebe que eu estou logo ali e muda o ritmo, improvisando um samba, enquanto caminha na minha direção:
"Já acordô, acordô/ tomando seu cafezinho/ sentadinho na cozinha/ vai comendo o biscoitinho, ê ôôô, ê ôôô...”
Mantenho meu silêncio, não há nada que eu possa fazer. Quando ele finalmente para na minha frente eu arrisco:
"É, deu pra notar que você chegou..."
Ele sorri, imune à ironia. Está animado, mas isso é uma redundância, em se tratando de Joaquim. Enquanto dou mais um gole no café, observo sua ginástica para se desvencilhar de sua incrível bolsa a tiracolo.
Joaquim usa uma dessas bolsas de lona, enorme, cuja alça poderia circundar duas vezes seu corpo. Ele a enrola no pescoço e passa pelos ombros. A bolsa fica pendurada atrás, na altura dos rins, ou seja, na posição mais difícil para se manusear. Ele sempre tenta abrir a bolsa nessa posição impossível e, quando percebe que não dá, passa a se desvencilhar da alça, num processo indisciplinado de tentativa e erro, como um prisioneiro que tenta se libertar das cordas que o mantiveram amarrado por um longo tempo. Sempre me pergunto como ele consegue se amarrar desse jeito. O processo todo dá a pausa necessária para que eu termine meu café. Finalmente, com o cabelo despenteado pelas inúmeras passagens da alça sobre a cabeça, ele se senta em minha frente, com a bolsa no colo.
“Ta tudo aqui, ó”.
Dito isso, se inclina sobre a mesa e escolhe minuciosamente dois ou três biscoitos de maizena que estão no prato, junto com o pão. Eu o observo pacientemente enquanto ele segura cada biscoito contra a luz que vem da janela e os examina de um lado e do outro.
“Joaquim, todos os biscoitos são iguais”.
“Certo, certo. Mas alguns são mais iguais que os outros”.
“Isso aí é Millôr Fernandes quem disse. Mas não sobre biscoitos”.
“Eu sei”.– Joaquim ainda está olhando para os biscoitos na mão – “Todo mundo procura sempre as coisas que são diferentes. Eu não. Eu, agora, quero ver se consigo achar as coisas que são iguais, sacou? Tudo que for igualzinho...”
“OK, tá bom, deixa pra lá. Só queria saber”.
Joaquim morde um biscoito - “Cê me empresta sua xícara aí”.
“Pega uma ali no armário”.
“Naaa... me empresta essa aí mesmo”.
Eu me levanto, pego uma xícara no armário e, quando volto, ele já está com a minha xícara, na qual despeja um pouco de café. Eu me sento, com a xícara limpa e me sirvo mais um pouco, também.
“E aí, cadê o texto?”, pergunto.
Ele deposita a xícara na borda da mesa, um quarto dela está pra fora do limite do tampo. Eu estendo o braço e puxo a xícara para uma posição menos perigosa enquanto ele abre sua enorme bolsa e retira de lá um maço de papéis surpreendentemente ordenados, envoltos com cuidado por um plástico transparente.
“Cê sabe quantas páginas são?” – pergunto.
“Vinte e três. Fora a página do título e a introdução”.
“Que introdução"?
“Peguei um parágrafo que você escreveu e botei como introdução, ué”.
Eu não estava, no momento, disposto a abrir a papelada e inspecionar o resultado geral.
“A Cida sabe desse negócio de introdução"?
“Foi ela que sugeriu, cara. Liguei mais cedo pra ela, li a sua parte pra ela e ela sugeriu botar a introdução; o título, inclusive”.
“Sei”.– me sinto mais tranqüilo com a intervenção de Cida – “E qual título, afinal, que vocês puseram"?
Joaquim lê através do plástico: “Um hiato no inferno”. E acrescenta: “Suas palavras, cara, a Cida gostou desse negócio que cê escreveu”.
“OK” – eu digo – “se a Cida falou, tá falado”.
Percebo que Cida é uma das poucas pessoas a quem Joaquim ouve, mesmo que ele não saiba disso. Conversamos mais um pouco e lembro a Joaquim que o prazo para a entrega do conto termina hoje, às quatro horas, e que ele ainda tem que tirar as cópias e ir, de ônibus, até o campus, fazer a inscrição. Ele se demora mais um pouco por ali enquanto eu busco algum dinheiro no quarto.
“Acho que isso aqui vai dar” – eu digo, e entrego pra ele algumas notas que ele enfia no bolso traseiro, sem contar.
“Falou, cara”.
Antes de sair ele para na porta da cozinha e vira-se, os dois indicadores fincados no alto da própria cabeça:
“Agora é o seguinte: o velho pensamento positivo, cara. Vê se esquenta esse pé frio chulezento desgraçado que ocê tem”.
Deixa a porta da cozinha aberta e, enquanto eu a fecho, ouço seus passos pulando as escadas do prédio, para baixo, em direção à rua.

09 abril 2007

Os Amigos Admiráveis - parte 1

Talvez a gente tivesse que botar coisas como chuva, vento e mau tempo para criar, literalmente, um clima mais pesado no texto.

A máquina de soletrar, como Joaquim a chamava, era uma Olivetti verde, pequena e ágil e nossa datilógrafa oficial, Cida Velasques, estava sentada no seu tamborete, com as mãos febris digitando o discurso prolixo e tortuoso de Joaquim, que rodava em volta dela olhando para o chão, enfatizando as frases com as mãos, imerso na palinfrasia que ele chamava de “procriação literária” e que, uma vez iniciada, não controlava e Cida, sem pausar as mãos nem por um instante, repetia a intervalos, “dá um tempo, dá um tempo”.

O texto, uma história de puro terror, era estranhamente original na medida em que só continha chavões, os mais usados no cinema e em toda a literatura de gibis, misturando todas as entidades de pesadelo conhecidas, vampiros, lobisomens, almas penadas, mortos-vivos, extraterrestres, múmias, os “ígores”, corcundas ajudantes dos cientistas malucos, os próprios cientistas, gênios do mal e mocinhas indefesas sendo massacradas uma a uma através da história que começava com antigas maldições egípcias e caminhava alucinadamente para o apocalipse no futuro longínquo.

Estranhamente a história não tinha heróis e isso foi o que me chamou a atenção, enquanto eu ouvia, sentado no sofá daquele quarto pequeno, no pequeno apartamento de Joaquim, no vigésimo segundo andar, no centro da cidade. Intervi algumas vezes, quando, por exemplo, a múmia, com a “vingança estampada nos olhos”, atravessava o Mar Morto nadando nas profundezas. “Péra aí”, eu disse, “vamos seguir as regras. Múmias não nadam.” Joaquim parou um instante, reorganizando os pensamentos. “Não?”, perguntou. “Não me lembro de nenhuma múmia nadadora”, respondi. Joaquim, cruzando os dedos das duas mãos e estendendo os braços para a frente com as palmas viradas para onde eu estava, provocando múltiplos estalos das falanges, falanginhas e falangetas, admitiu: “tá certo, tá certo” e mudando o enredo, acrescentou Shriack, o Monstro do Mar Morto - teve que soletrar o nome : X.. R.. I.. etc, que Cida corrigiu: “S, H, R, I, A, C, K. Fica melhor.” - uma das maldições locais que já era milenar no tempo em que a múmia era humana e sobre o qual a mesma múmia, um antigo feiticeiro, tinha poderes. Invocando o monstro, a múmia designou-o como portador da Praga, outra maldição, que se abateria sobre os povos pacíficos do outro lado do mar, livrando-se assim da triste perspectiva de ser uma múmia ensopada quando emergisse nas “margens ocidentais”. “Por que ocidentais?”, perguntei. “Para realçar o conflito entre o oriente e o ocidente”, disse Joaquim. “Olha, o Mar Morto inteiro é oriente.” “É, mas qualquer lugar tem um lado ocidental e ninguém vai prestar atenção nessas coisas.”

Ninguém presta muita atenção nessas coisas, repeti em pensamento e, ainda assim, lá estava eu interessado no final da história e esperando a conclusão, torcendo para que Joaquim não perdesse o fio, a verve, como já vi acontecer em outras ocasiões. Mas ele parecia embalado no seu próprio ritmo e o conto, mal ou bem, caminhava a passos largos, passos de monstro.

Lá pelas cinco horas da tarde perguntei a Cida quantas páginas havíamos percorrido desde o meio dia, hora em que, com os últimos pedaços de uma pizza nas mãos, deixamos a cozinha para nos acomodar no minúsculo quarto; Cida em seu tamborete em frente à mesinha com a Olivetti e um maço de papéis em branco, eu sentado na única poltrona e Joaquim de pé, rodando pelo quarto, indo da janela até a porta, voltando para a janela e olhando para a cidade, gesticulando a mímica que seus monstros lhe inspiravam: os dedos crispados do seu lobisomem, o olhar alucinado do Vampiro das Estradas, o andar trôpego do morto-vivo que procurava a passagem do Hades nos subterrâneos da cidade. Quatorze páginas, na digitação impecável de Cida que muitas vezes escutava sentenças inteiras antes de colocá-las na devida ordem, costurando as falhas, alinhavando as pontas perdidas, destrinchando o novelo em um único e coerente fio de forma que quem lesse aquilo pudesse ter a impressão que se tratava de um conto.

O prazo para a entrega das três cópias exigidas terminava no dia seguinte. O concurso de contos para desenvolvimento de enredos de cinema, promovido pela faculdade de comunicação da Universidade onde Joaquim estudava, oferecia um pequeno premio em dinheiro aos contos vencedores, primeiro, segundo e terceiro lugares, além da publicação dos mesmos na revista literária do campus. Lá pelas seis Joaquim colocou o ponto final na sua história. As idéias ainda o atropelavam, mas o desfecho apareceu inadvertidamente e Cida não deixou que ele escapasse, argumentando que estava bom assim e não permitindo acréscimos. O apocalipse havia chegado e os monstros tomaram a terra. Nesse ponto Cida sugeriu a idéia salvadora: cada monstro poderia ser um político corrupto, um industrial inescrupuloso, um tirano sanguinário, “que também são todos clichês” e o conto na verdade seria uma metáfora sobre o fim da civilização. Joaquim parou e do canto onde estava olhou pra mim, piscando os olhos que ele mantinha exageradamente abertos entre as piscadelas, e murmurou: “Gênio!”

Queria imediatamente trabalhar com Cida na nova idéia mas ela veio com outro argumento, irrefutável: “Tenho que ir pra casa”, e se levantou, foi até a janela onde havia mais luz, tirou da bolsa uma pequena escova e ajeitou seus cabelos curtos, caminhou, ainda ajeitando os cabelos e atravessou a porta da cozinha, rodeando a mesa e entrando no minúsculo banheiro do outro lado. Joaquim estava de pé ao lado da máquina de escrever, olhando as folhas datilografadas, empilhadas ordenadamente sobre a mesinha. Olhava com interesse, mas não tocava nas folhas, como se aquilo fosse algo que ele acabasse de descobrir, jogado por ali.

“Como é que a gente vai fazer, cara? A gente vai ter que bater tudo de novo?” Fui até onde ele estava e peguei o maço de papéis. Li a primeira página e notei o trabalho soberbo de Cida, a leitura resistia ao meu ceticismo. Olhei para a janela e intimamente disse adeus à noite no bar da esquina. Sentei-me no tamborete e coloquei mais uma folha de papel na máquina. “Cê podia fazer uma coisa”, eu disse , “vai lá embaixo e compra umas cervejas”. Joaquim bateu nos bolsos das calças, “no money, man”. “Tá bem”, eu disse, “toma aqui” e estendi pra ele algumas notas. Cida saiu do banheiro, Joaquim disse: ”tô descendo junto com cê”; ela me beijou o alto da testa e saíram os dois pela porta rumo ao elevador.

Li o texto do princípio ao fim, ainda que rapidamente e ponderei a maldição que pesava sobre mim naquele momento: escrever uma segunda parte do mesmo conto, achando passagens históricas que se relacionassem com o que aqueles monstros estapafúrdios estavam fazendo. Não foi tão difícil, o que dá uma idéia de como a história humana, sob certo aspecto, não passa de uma sucessão de horrores variados. Pulei alguns milhares de anos e iniciei minha triste analogia no início do séc. XX, encaixando os personagens desastrosos que todos conhecem e que atravessaram as duas grandes guerras, as outras guerras menores, o holocausto, as tiranias espalhadas a torto e a direito, a grande depressão e por aí a fora. Meu maior problema foi com o lobisomem de Joaquim que era, definitivamente, um monstro simpático. Não tinha, pelo menos, a intenção de ser cruel, apesar de ser. Vagava pelas noites atormentado com sua dupla natureza sem outro objetivo que não o de resolver-se, dissipar seus próprios fantasmas etc. Um monstro de monólogos, shakespeariano, que amava sobretudo a noite e, sem poder prescindir disso, sofria por transformar aquilo que amava no palco de suas atrocidades. Uma frase, no seu único monólogo, fazia do lobisomem um personagem notável: “.. estou vivo, mais vivo do que os que vivem e vão morrer. E, para os que vão morrer, eu sou a morte.” (sic) O melhor que pude fazer com o lobisomem foi torná-lo um símbolo da barbárie latente dos povos, barbárie que desperta ao cair da noite, ou melhor, das bombas.

Joaquim voltou uma hora depois com algumas cervejas. “Demorei, cara, por que o ônibus da Cida demorou. Fiquei lá conversando com ela no ponto.” Colocou algumas cervejas no refrigerador da cozinha e voltou com uma delas e dois copos. Bebemos num silêncio repentino, a janela aberta como um ouvido no vento, captando os ruídos da cidade lá fora, o guincho de freios, alavancas, portas, buzinas dissonantes do final do dia, motores rosnando seu mau humor no tráfego que crescia na hora do rush. Joaquim parecia não ter mais nada a dizer sobre coisa alguma. Foi até a janela verificar alguma freada mais alta que se sobressaiu no ruído do trânsito lá embaixo. Ficou na janela um tempo, o tempo necessário para gritar “ô burrão!” pra alguma coisa nas ruas, sabendo, claro, que a coisa não ia ouvir. “Olha, cara, vou ver televisão no quarto. Se precisar me chama.”

Ele foi e eu fiquei a sós com meu parágrafo inicial, que era o que eu tinha até aquele momento. Ainda não havia chegado no monstro-Sheakespeare que, no texto de Cida e Joaquim, me aguardava algumas páginas depois. Ouvia os sons que vinham do quarto, Joaquim assistia algum desses programas de auditório onde todo mundo, num milagre de homogeneidade meio assustador, vira imbecil, sendo que muitos nunca mais desviram. Quando me levantei para pegar outra cerveja e passei pela porta do quarto vi que Joaquim dormia na posição que se acomodara para assistir ao programa na tv que, agora, já era outro.

Perto da meia noite, entre idas e vindas à geladeira, já tinha terminado minha parte. Estava cansado mas ainda assim deixei um bilhete para Joaquim: “O negócio tá pronto. Acho que produzimos algum tipo de aberração literária. O júri do concurso vai ter que queimar alguns neurônios extras, eu acho. Falta apenas passar a limpo. Vê se você dá um jeito nisso, em tempo hábil. Cê ronca igual uma capivara gorda. Qualquer coisa me liga.” Saí pela porta sem fazer barulho, peguei o elevador, passei pela portaria vazia àquela hora e fui trotando pela calçada, me desviando dos grupos de damas da noite que faziam ponto nas esquinas mais escuras do centro.

Acordei mais tarde que o costume no dia seguinte com o telefone tocando, lá pelas dez horas da manhã. “Alô? Alô? Acabei, cara. Passei a limpo e tudo. Mas tô sem grana pra tirar o xerox. Cê num tem aí não?” Joaquim sempre fala dois alôs ao telefone, pra início de conversa, não importando o que a outra pessoa diga, ou que responda ou não responda ao primeiro alô. “Passa aqui”, eu falei. Eu estava já sentado na mesa da cozinha, tomando meu café quando ele chegou, entrando pela porta dos fundos do meu apartamento que eu, precavidamente, já deixara destrancada depois que ele ligou.

18 março 2007

Turismo

Em Roma,
que já foi de Augusto,
um turista,
exibicionista
e as estátuas,
petrificadas de susto.

05 março 2007

Esses álbuns solitários

Esses olhos sanitários
olhando retos, nada consta.

Essa amargura, esse augúrio
de coisa alguma, essa bosta.

Esses álbuns solitários
com essas fotos de espanto.

Essa viagem sem volta
meio mundo e mais um tanto
sem resposta, costa a costa
em linha reta, num corte
será pra sempre esquecida.

Saindo do mar da vida
entrando no mar da morte

26 janeiro 2007

Diga-me o que não falas (se isso for possível) e te direi quem és

As pessoas evitam pronunciar certas palavras, evitam escrever outras e evitam pensar em outras. São as palavras odiadas, palavras que causam irritação em quem as pronuncia, em quem as ouve. Palavras que causam desconforto em quem está escrevendo e o escritor que abusar delas vai encontrar o seu leitor do outro lado da linha que separa seus amigos dos inimigos.
Tudo é muito relativo, tudo é muito variável, mas existem algumas que são evitadas por quase todo mundo. Entre elas estão:
Alma - Honra - Responsabilidade - Sacrifício - Espírito - Mente - Moral e, inclusive, Deus (quando usada a sério, fora de expressões como "meu Deus!" ou "Deus me livre!") São alguns exemplos.
Essas palavras se tornaram malditas pelo peso doentio imposto a elas pelas religiões, durante alguns séculos. O cristianismo, mais específicamente. São palavras capazes de estragar irremediavelmente qualquer texto porque estão carregadas com uma (outra palavra chata:) aura de pura breguice, cansaço, desconfiança, dor e, por que não, medo.
O desconforto que essas palavras causam significa, entre outras coisas, que a alma (argh!) está machucada; significa uma cicatriz ainda dolorosa na área mental (ui,ui,ui) que trata desses assuntos.
Essas palavras foram praticamente deformadas e seu uso só é comum em desequilibrados.
Não sou masoquista, já tá ficando difícil continuar. Argh!
Por isso: diga-me o que não pronuncias e te direi que tua liberdade é ilusória, que temes ainda o monstro que se oculta no fundo de teus pesadelos e cujo nome verdadeiro não conheces bem, cujo apelido é medo e é tão velho quanto tua ingênua credulidade.
Caramba, carácoles, carái e putzgrila! Pqp! Desculpem, tenho que dar uma aliviada aqui, sô.

08 janeiro 2007

Mamã Natureza

Mamãe Natureza é boazinha, dizem. Bem, pelo menos me disseram isso, repetidas vezes. Tudo na Natureza tem um equilíbrio perfeito, também já ouvi muito.
Vi na TV uns gnus em pandemonio atravessando um rio; crocodilos com seus sorrisos compridos, puro sarcasmo, desciam do barro das margens e iam lá, morder as pernas dos gnus debaixo dágua. Eram milhares de gnus que tinham limpado a relva numa área de um quilômetro quadrado do lado de cá do rio e que agora iam rapar o outro lado.
Tinha umas zebras que ficaram sem capim e seguiram os gnus, levando no rastro uma família grande de hienas. As hienas balançam a cabeça de um modo sinistro e têm enorme dificuldade de relacionamento uma com as outras. Não querem atravessar a droga do rio mas vão até as margens porque sabem que ali tem umas leoas furiosas, escondidas atrás do mato raso.
A TV mostrou duas leoas lustrosas, espremidas atrás de uma moita, tensas e com os rabos dando chicotadas no ar, TPM em último grau. E o burro do gnu passa assim, na frente delas. A leoa pula de quatro em cima dele, o bicho leva um susto que o olho quase sai pra fora e caem os dois dentro da água, fazendo um escarcéu infernal, lama voando pra todo lado e a outra leoa vem franzindo a cara para não levar respingo no olho.
As hienas ficam na margem, botando olho grande, andando pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, babando, fissuradas. Uma delas, mais retardadinha, não percebe que tá chegando perto de um crocodilo, camufladão no barro. Ele dá um pique em cima dela, um monstro de não sei quantos metros e o bicho é rápido; a hiena escapa por pouco, a adrenalina botando ela pra correr até o fim da África. O crocodilo tá agitado também, fecha a boca naquele sorriso esquisito e volta, rabeando, doidão, pra dentro do rio.
Lá na frente um hipopótamo obeso com uns hipopotinhos (sic) obesinhos vão entrando na água e deixando aquela bagunça pra tras.
A camera corta pra um urubu do tamanho dum ganso que vem voando, já baixo, e aterrisa com uns pulinhos igual gente que corre pra pegar o ônibus e o ônibus vai embora e o cara desiste da corrida e vai freiando sem graça.
O saldo dessa zona toda é alguns gnus mortos ficando por ali e o resto já do outro lado do rio. Um ser humano pelado no meio de uma confusão dessas não duraria trinta segundos. Na verdade o ser humano pelado não dura muito em nenhum lugar natural. Leva bicada, da bactéria até a trombada do elefante. Também não dá mole pra nenhum animal. O processo da vida é um negócio absolutamente psicopata.
- Ô, muda esse canal aí. Cadê o controle? Aproveita e me traz o uísque aí que o meu acabô, liga o ar condicionado e me vê mais duas pedras de gelo.

23 dezembro 2006

Recado ao Noel

Ei, Santa. Mantenha essas renas longe do meu telhado. Vai me quebrar todas as telhas e, depois, quem é que vai pagar o estrago, heim, heim? Pare de atormentar as criancinhas com sua inexplicável obssessão pelo vermelho. Cê é algum raio de comunista ou o quê? Que que cê come lá no Polo Norte para ser tão gordo? Tá precisando de um regime, véio. Que que é rôu, rôu, rôu? Isso é uma risada ou uma ameaça? Sai pra lá, chulé; vê se larga do meu pé.
PS: cê vai trazer presentes? Prá mim? Então me manda os anos 70 de volta e algumas pessoas que ainda tavam lá. Depois a gente conversa.

17 dezembro 2006

Faça alguém feliz

Faça alguém feliz, não é difícil.
Saia de carro e deixe alguma porta mal fechada. Pode ser a sua, a do motorista.
Você notará pelo retrovisor que algum outro automóvel está te seguindo e pisca desesperadamente os faróis; o motorista gesticula através do vidro, mas você continua dirigindo calmamente e nota que o motorista agora está tentando chegar perto, emparelhar o carro dele com o seu.
Para fazer isso ele quase subiu na calçada, atravessou o sinal amarelo no último segundo, fechou um ou dois carros que estavam impedindo que ele se aproximasse e, finalmente, consegue parar a seu lado. Ele chama sua atenção com buzinadas curtas, ele não está reclamando com a buzina, ele só quer sua atenção.
Quando finalmente você olha ele está gesticulando frenéticamente, apontando o dedo em sua direção e tentando dizer algo através dos vidros fechados. A boca dele se move lenta e expressivamente, ele quer que você leia seus lábios enquanto inventa sinais com as mãos; ele está passando uma mensagem e sabe que tem que aproveitar aquela chance porque logo logo você e ele serão separados pelo trânsito.
Às vezes ele chega a se debruçar sobre o banco da frente e abre a própria janela para dizer, aflito: A PORTA ESTÁ ABERTA! E só depois de se certificar que você entendeu o recado é que ele relaxa, sorri e vai embora, feliz pelo resto do dia porque ajudou um idiota qualquer (você) que não sabe do enorme perigo que é dirigir com uma porta mal fechada.
Agora, se é você quem quer se sentir feliz e não encontra um idiota com a porta aberta no trânsito, vá para casa e quebre algum copo ou garrafa de vidro. Junte os cacos cuidadosamente e procure aqueles jornais velhos, papelões, o que for que lhe permita fazer aquele embrulho especial que a gente faz para O LIXEIRO NÃO CORTAR A MÃO. Quando a gente consegue fazer um embrulho desses que garanta que O LIXEIRO NÃO VAI CORTAR A MÃO, estamos felizes pelo resto do dia, não tem erro.

15 dezembro 2006

Formigas

Todo mundo já viu formigas, uma ou milhares, doidamente caminhando por aí. Todas as formigas são do sexo feminino (os machos são criados periódicamente, utilizados e descartados em seguida). Assim como todas as abelhas e uma infinidade de insetos. A inteligência das formigas é coletiva, a organização é de um socialismo extremo ou, mais propriamente, de um comunismo consumado. Formigas trabalham o tempo todo, durante toda vida. Uma formiga não tem senso de humor e nem descansa. São ferozmente práticas, objetivas e não perdem tempo. O objetivo visível é o bem comum. O invisível é sobreviver, custe o que custar; sobreviver a tudo e a todos. A nós, inclusive. As formigas são a imagem do extremo feminino. O extremo feminino é um imperativo universal, o extremo masculino é muito efêmero. O sexo feminino é o sexo básico, portanto anterior ao masculino que é só uma variante. A divisão de sexos é só uma experiência terrena. Pode não dar certo. Toda mulher tem um que de formiga. Ou de abelha. E o sexo masculino é descartável.

08 dezembro 2006

O horror, o horror


Acabei de reler o Coração das Trevas, de Conrad. É certo que Conrad escreveu em inglês, que ele aprendeu depois dos vinte anos de idade. Ou seja, duvido que falasse inglês fluente. A tradução (inglês para português) é legal mas... tem alguma coisa esquisita. É algo como se um pintor habilidoso e destro machucasse a mão direita e pintasse com a esquerda. Bem, deixa pra lá. O que eu queria dizer é que eu estava na fila do caixa do supermercado e cedi meu lugar para uma mulher grávida e logo atrás dela veio outra. As duas barrigudas se entalaram no corredor estreito, segurando bolsas e sacolas plásticas, dando umbigadas uma na outra, tentando se desvencilhar; uma agarrada ao carrinho de compras, a outra empurrando com as costas o rapaz que empacota as mercadorias, que tentava ajudar, enfiando os braços sob as axilas da segunda e tomando cuidado para não roçar a barrigona e os seios intumescidos... em certo momento as duas mulheres, ambas simpáticas, começaram a rir e uma delas falou: "oh, meu deus, que horror, que horror...!" Eu pensei: Conrad, você precisava ver isso...

16 novembro 2006

Vida

Pequenos Pensamentos Pertubadores II

Bem, não existe a menor chance de você escolher pessoas para seu relacionamento. Você nasce e, evidentemente, não escolhe sua família. Você também não escolhe seus vizinhos. Dentro de um número reduzido de conhecidos você elege seus amigos, amigos de infância, colegas mais chegados. Você convive com eles e nunca vai saber se eles são os melhores amigos que você poderia ter simplesmente porque você não conhece todas as pessoas à sua volta.
É comum você morar durante 20 anos num lugar e nunca ter visto alguns dos seus vizinhos que, do mesmo jeito, moram ali a décadas. Você namora, fica noivo, se casa com alguém e vou dizer uma coisa: seu leque de opções é sempre ridículo se comparado com as centenas de pessoas que você poderia ter conhecido - porque circulam por onde você anda - mas que você nunca viu. Nem vai ver.
Vou chamar esse negócio de Índice de Visibilidade: iv (assim, com minúsculas, pra não ficar parecido demais com algarismos romanos). Se você nasceu com um iv alto, você se torna uma pessoa famosa. Não importa o que faça. Por outro lado, se seu iv é mínimo, você pertence à vasta legião dos semi-visíveis, dos embaçados ou até dos invisíveis.
Não importa que você trabalhe como um condenado para aumentar seu iv; ele já está mais ou menos programado por forças estranhas (forças que têm, de propósito, um iv baixíssimo). Assim é que existem moças belíssimas que passam a vida colhendo sementes nas estepes da Baixa Eslobóvia e nunca souberam que nada ficam a dever à Gisele Bundchen em "beleza e graça". Assim é que um sujeito subnutrido sai de uma aldeia subnutrida do interior da Bahia e vai, sem escalas, aparecer na TV, em São Paulo, e daí pro Brasil inteiro e um outro, compositor também notável, passa suas noites cantando num boteco fudido pra meia dúzia de pessoas completamente desinteressadas.
Penso também nas pessoas que tiveram a má sorte de estar dentro do círculo de influência de sujeitos como Stalin, Hitler, Mao, Che Guevara ou do curingão latino e ladino, Fidel. E outros, claro. Essas pessoas também não tiveram escolha, tendo que aguentar a pressão, tantas vezes letal, que a simples presença desses rábulas escrotos causava. As outras pessoas com iv alto, nesses casos, ou aderem ou perecem.
Parece assim: a vida é um jogo de cartas, pôquer, digamos e, para enfrentá-la, você recebe suas cartas, e só. Faça o melhor que puder com as cartas que você tem na mão. Ou não. Mas você não pode trocá-las.

13 novembro 2006

Pequenos Pensamentos Pertubadores I

Vamos falar de astronomia. Por que não? Imagine um quarto vazio, totalmente vazio, onde flutuam no ar dois grãos de poeira. Os grãos se movem, digamos, aleatóriamente. A probabilidade de um choque entre ambos, num período de um dia, por exemplo, é praticamente zero. Mas se você estender o fator tempo, a probabilidade tende a crescer. Num período infinito de tempo, a probabilidade é um, ou seja, haverá um choque. Perceberam onde quero chegar? Há pouco tempo houve uma pequena chuva de meteoros em Júpiter. Meteoros do tamanho de Fernando de Noronha. Daqui tiraram fotos e calcularam a força gerada pelo impacto, algo como dez milhões de bombas de Hiroshima. Como o prometido: um pequeno pensamento perturbador.

04 novembro 2006


Abaixo, nas ruas, fenômenos noturnos em seqüência aleatória.
A mulher das pernas russas indo de encontro ao chamado das esquinas. O motorista perdido que passa com seu carro, vidros fechados, inúmeras vezes pela mesma rua. O ônibus enguiçado há mais de 3 dias, ocupando com seu silencioso peso a entrada da garagem do edifício. O vendedor ambulante de sorvete que vende sua mercadoria em plena noite, todas as noites e no mesmo cruzamento, entre dez e meia noite, quando então vai embora e ninguém sabe ao certo para onde. 15 degraus, erguidos rente ao muro do colégio e que terminam sobre o muro, em pleno ar. O próprio colégio, desativado há tempos, num tempo não cronometrado. Um menino estranho, que amava doidamente seu cachorro e de quem eu nunca soube, nem quis saber, o nome. Mas ele, de uma forma ou de outra, acabou se insinuando em meu desenho, sem que eu esperasse, de forma que esse mesmo desenho tem essas outras memórias penduradas, desse tempo em que eu morava na rua São Paulo.

03 novembro 2006

Amar É 3

Amar É 2


Essa é a segunda página...

Amar É...


Bem, isto é uma hq que refiz para a revista Graffiti. Publiquei essa história no meu antigo fotolog, em quadros isolados e comentários fora dos quadros. O enredo era outro. Eu tinha dado o nome de Append City e a idéia, além de ser uma paródia e gozação do Sin City, era estender a história até um pequeno apocalipse. Não tive fôlego ou tempo para manter o projeto e a história acabou mudando e indo para a revista Graffiti, o que foi muito melhor. Tive que juntar os quadros e compor páginas, de forma que isso virou mesmo uma hq. Eliminei as cores, para baratear a impressão (no papel) e achei que ficou melhor. Não gosto tanto de cores. Um detalhe legal é que a história foi toda desenhada no computador, muitos desenhos feitos no velho Paintbrush e apenas "amaciados" no Photoshop (5.5). Parece que em breve vai estar nas bancas, no próximo número da Graffiti. Isso aqui é uma prévia, pré-estréia, esse tipo de coisa.

21 setembro 2006

Lendo Harold Bloom


Harold Bloom, aparentemente, leu tudo o que há para ler. Durante mais de meio século Bloom leu incansavelmente. Seus autores favoritos são também, em grande parte, os mais famosos e devemos agradecer a Bloom o fato dele, no seu incansável ofício de leitor, resenhar para nós tais autores famosos e, entre esses, tantos extremamente cansativos.

A maldição do crítico literário é que ele, mais do que qualquer homem de letras, tem que estar vivo, mesmo que de forma figurada. O bom crítico literário lança para o futuro seus limites, conseguindo às vezes abranger uma era ou predizer uma nova. Mas não pode, ao contrário do escritor, sobreviver ao tempo.

Obviamente ele não poderá, depois de morto, fazer a crítica dos novos escritores que surgirão e das estranhas modalidades que a sensibilidade literária trará à tona. Com o tempo, forçosamente, toda crítica literária tende ao obscurantismo. O prisma gira lentamente e filtra outro espectro, o que vale dizer que toda percepção literária muda com o tempo.

Bloom escreve sobre o Dr. Johnson e pula por cima de outras críticas, contemporâneas, pessoas tão sagazes como Edmund Wilson ou George Steiner, que foram leitores poderosos e escritores idem. Eleger Samuel Johnson como crítico preferido implica em compartilhar o mesmo prisma do grande crítico mas, para nossa tristeza, há uma tristeza latente no que Bloom escreve. Talvez esse prisma tenha sido quebrado duramente pela passagem do tempo que produziu, por exemplo, duas grandes guerras e moldou, à força, uma nova e não necessariamente melhor, sensibilidade.

Bloom procura criaturas e valoriza, justamente, as criaturas mais perfeitas, ou seja, as mais consistentes. Ou seja, Bloom ama o teatro e, além do fato de confundir, sem aviso prévio, teatro com literatura, não se dá conta das limitações do primeiro ou não se dá ao trabalho de analisar isso.

Teatro é obra literária, sem dúvida, mas é, no máximo, gênero literário. Exige-se alguma explicação para colocar um autor teatral ao lado de um romancista. Bloom faz o mesmo que Manuel Puig, escritor menor, argentino, que apenas troca a ordem das coisas e confunde literatura com teatro. Por falar em Argentina, Bloom tem dificuldades em assimilar Borges, talvez por que Borges seja o antiteatro, entre outras coisas.

Bloom procura, quase religiosamente, os deuses criadores através de suas criaturas. Shakespeare, sob esse aspecto, é merecidamente o criador supremo. Nada se compara à extensa, variada e viva galeria de personagens criada pelo bardo. Quanto mais poderoso é o criador, mais vida empresta a seus personagens de forma que estes já não são seus arautos, o criador não fala através deles porque eles têm vida própria e são arautos de si mesmos.

Isto é, sem dúvida, um feito notável em literatura e Shakespeare, segundo Bloom, é o mestre absoluto. Temos que concordar. Sob esse prisma, Shakespeare é incomparável. Mas existem outros fatores e, alguns, alheios à capacidade individual do escritor. O problema da transposição entre idiomas é assunto longe de ser resolvido. Shakespeare não resiste bem ao português, principalmente no Brasil. O discurso às vezes hermético, às vezes parabólico de Shakespeare não encontra apoio no sub-português falado no Brasil, obrigando os tradutores a um exercício de retórica quase incompreensível. A culpa, evidentemente, não é de Shakespeare, mas a distância de sua alta retórica para a nossa simplificada fala é um abismo difícil de ser transposto. Bloom se engana ao afirmar que Shakespeare é absolutamente universal, no sentido de ser apreciado igualmente no mundo inteiro. Não é não. O povão mundial talvez aprecie apenas o fato de que suas peças são, em grande parte, rádio novelas baratas. Mas a outra dimensão, a dimensão verbal de seus personagens, que está acima do enredo dessas peças e que constitui a arte quase insuperável de Shakespeare, nos escapa. Não temos, pelo menos hoje, no Brasil, um idioma capaz de refletir o brilho verbal de Shakespeare.

Grande parte (para não dizer a totalidade) da literatura dos séculos precedentes ao século vinte é composta de solilóquios, circunlóquios, hipérboles, palavras chatas e excessivas, volteios e imprecisões – a insustentável lerdeza do ler e do escrever é o título do ensaio (que Milan Kundera não poderia produzir) sobre a chatice sem par da literatura européia até o séc. XX. Há exceções, claro. Contam-se nos dedos. Mas a grande maioria dos autores assombra, como o fantasma de Hamlet, aquela outra e verdadeira minoria silenciosa: nós, pobres leitores.

Quem já leu, ou pretende ler Em Busca do Tempo Perdido? A piada é cruel e de mau gosto, mas necessária: ao final das dez mil páginas constata-se o tempo perdido. Não há nada que Proust possa nos oferecer, hoje, e a inegável maestria da escrita, mesmo em traduções ruins, não é suficiente para sustentar o volume excessivo da deformidade sentimental da obra. Proust e seus personagens são de um outro mundo, distante, doentio e excessivamente melancólico. Um mundo enfermo. Não que o mundo, depois de Proust, seja mais saudável. Mas é mais dinâmico e não comporta mais as prostrações de Proust (o trocadilho é inevitável: proustrações).

Kafka ainda nos surpreende com a grande barata. Mas o que se inicia como um choque, a transformação de Gregor Samsa, se revela apenas um artifício para outra litania desesperadora sobre o Pobre Coitado, o único personagem kafkaniano. Kafka escreveu páginas sobre seu único tema, o Pobre Coitado. A força de Kafka vem do modo como ele escreve sobre esse tema e não do Pobre Coitado em si, que é uma das pragas mais insidiosas da literatura européia, ou ocidental, se quiserem. Há quem goste.

Werther, o jovem de Goethe, raia o retardamento mental. É difícil entender Werther, não a especulativa ingenuidade ou os previsíveis estados emocionais do personagem, já que entendemos imediatamente o que ele demora a se dar conta, mas a pieguice inerente como pilar central da obra. Sem aquela pieguice não há Werther e é difícil acreditar nisso.

Bloom é um tipo de leitor entre vários outros tipos. Quantos tipos existem? Não sei responder a essa pergunta, mas percebo que Bloom percebe e busca o conteúdo das obras que resenha. Na verdade, essa é a forma mais comum de leitura. Procura-se o que o autor está dizendo, o que ele tem a dizer, digamos, sua filosofia. Mas existe aí um problema, não solucionado. Existe outra coisa na literatura, fundamental, pela qual Bloom passa batido. Essa coisa define cada autor, cada livro, de forma que dois autores, usando o mesmo idioma, escrevendo a mesmíssima história produzirão obras tão diferentes entre si quanto dois flocos de neve da mesma nevada vistos ao microscópio.
Cada autor tem seu estilo, e estilo é quase tudo em literatura. Implica escolha das palavras, construção das frases, encadeamento das frases, encadeamento de idéias, ritmo, cadência, dosagem de ironia, humor, mau-humor, ou o que mais exista num texto. É necessário não confundir a eminência literária de um autor, isto é, seu estilo ou a forma com que ele escreve, com o que ele está dizendo. E, afinal, o que os autores estão dizendo? Nada de mais, na maior parte das vezes.

Ulisses, de James Joyce, que deixou os críticos de língua inglesa embasbacados, é exercício de estilo. Traduzido para o português (conheço apenas a versão de Antonio Houaiss) vira prosa de adolescente. Claro, um adolescente que tem futuro na carreira literária, ou seja, talentoso, mas ainda assim, adolescente. Ou isso ou Joyce também não sobrevive ao português.

Li mais sobre Ulisses do que me lembro do livro em si. Li sobre a estrutura rigorosa, ou o rigor estrutural (sic) da obra, li sobre a recriação da Odisséia, sobre complexidades e/ou profundezas psicológicas, fluxo dissertativo do inconsciente, etc. Bobagem. Joyce, com o perdão da palavra, era jovem demais, a despeito da idade cronológica. Há uma ingenuidade, comovente, em Joyce. Assim como em Charles Dickens, que a crítica anglo-saxônica insiste que seja ouvido (lido). Mas quem pode ler e levar a sério uma novela mexicana?

Bloom trata, por exemplo, Faulkner, Garcia Marques e mesmo Borges com reserva. Mais ainda esses dois últimos. Os três têm em comum o fato de que não são grandes criadores de personagens. Na verdade eles não se importam muito com isso. O personagem principal de Faulkner é uma espécie de divindade, talvez do tempo, um anjo do destino, que, evidentemente, não está na história mas paira sobre cada linha escrita e força o leitor a enxergar sob seu prisma. Os personagens de Garcia Marques são, praticamente, uma só pessoa. Falam da mesma forma e agem igualmente. Homens e mulheres, somos todos iguais e, de certa forma, isso ajuda no contraste com a fantástica realidade em que vivem, essa sim, sua grande, rica e imprevisível personagem. O personagem de Borges é a própria idéia central do conto, quase sempre surpreendente e complexa. Bloom, admirador radical de Shakespeare, espera sempre encontrar algum Hamlet perdido por aí. Dá a impressão de que não vai desistir dessa busca, ainda que a literatura, como no caso, possa apresentar novos parâmetros.